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ABELARDO F. MONTENEGRO (1)
Abelardo Montenegro: em novo livro, o pesquisador procura desvendar personagem do profeta da chuva, no contexto da cultura tradicional cearense (Foto: Kiko Silva)
Investigador das coisas do Ceará, o jornalista e sociólogo Abelardo F. Montenegro dedica um longo ensaio a um personagem da cultura tradicional do Estado. ´Ceará e o profeta de chuva´, seu 39° livro, será lançado às 19 horas, na Biblioteca Central da Unifor

Abelardo F. Montenegro se aproxima dos 100 anos. No final deste mês, chega aos 96, com um mente lúcida que desafia o cansaço do corpo. Formado em direito, não tardou a abandonar as atividades mais práticas da carreira jurídica para se dedicar às análises sociais. Se esquiva de uma definição unívoca: “sou economista e predominantemente um sociólogo (de Sociologia Regional), além disto, também escrevi muitos trabalhos de psicologia social”. Jornalista da velha-guarda, da época que se exigia uma boa cultura humanística dos profissionais da área, Abelardo é autor de mais de 40 livros (cinco deles, estão no prelo, enquanto outro se encontra em processo de escrita). “Ceará e o profeta da chuva” é o mais recente a ser publicado, pela Edições UFC. Ele será lançado às 19 horas, na Biblioteca Central da Unifor.

“Ceará e o profeta de chuva” ocupa um lugar intermediário na longa obra de Abelardo Montenegro. De um lado, se conecta com seus estudos anteriores sobre os tipos, os costumes e a psicologia do cearense. De outro, aponta para direções ainda não exploradas pelo autor. “Em meus livros, falei sobre vários tipos sociais na sociedade sertaneja: o beato, o penitente, o vaqueiro. Mas omiti, em toda minha obra, uma figura da maior importância para esta mesma sociedade, que é o profeta de chuva. Por conta desta omissão, resolvi escrever um livro sobre o profeta, com uma pesquisa limitada ao Ceará”, explica o escritor.

Desta forma, Abelardo procura preencher uma lacuna que identifica em sua obra anterior. Ele também não se evita explicar a razão de ter excluído uma figura que, segundo ele mesmo, é tão importante para compreenda as comunidades que vivem às voltas com a seca no Estado. “Historiadores, sociólogos e romancistas também cometeram esta mesma omissão. De forma que se trata de um livro pioneiro. Creio que, antes, não se dava importância a esta figura, talvez a julgassem apenas folclórica”, comenta.

Mito sertanejo

“Ceará e o profeta de chuva” se estrutura com um longo ensaio, dividido em pequenos capítulos. Abelardo Montenegro prefere os parágrafos curtos, assemelhando-se aos aforismos. No livro, o autor reúne dados antigos e novos sobre os profetas, sobre as secas que atingiram o Estado e as políticas públicas que, de certa forma, intervieram sobre um e outro fenômeno. Desta forma, o escritor faz um inventário detalhado das referências a um tema que, como ele mesmo frisa, carece de intérpretes de fôlego.

“O que torna este profeta tão representativo é que ele prevê, por meio de sinais, a chuva. E a água é o elemento primordial em uma região semi-árida. Dizem que o Egito é um presente do Nilo. O profeta de chuva é um presente do semi-árido. Onde tiver terra desta natureza, haverá preocupação com a chuva. Há uma certa obsessão hídrica do sertanejo, que você observa mesmo na expressões”, avalia o pesquisador.

Em sua interpretação, Abelardo Montenegro elaborou uma espécie de mito de origem do tipo por ele estudado. “Não se sabe exatamente quando surgiu, no Ceará, o primeiro profeta de chuva. No entanto, pode-se dizer, como hipótese de trabalho, que o primeiro profeta de chuva foi um agricultor que, tendo sua lavoura e rebanho arrasados pela estiagem, procurou identificar na natureza os indícios do tempo futuro. Por sua experiência, ele se tornou com o tempo informantes dos demais agricultores e criadores”, reflete.

Com isso, o pesquisador começa a flertar com a psicologia social, tentando identificar um tipo primordial, à partir de vestígios em seus representantes contemporâneos. Mas se, em alguns momentos, o autor trilha o caminho da especulação, a maior se baseia numa pesquisa densa. Por jornais e livros (que o autor lê com o auxílio de uma lente) e direto dos informantes. “Me correspondi com alguns profetas de chuva. Quando sabia que em determinada localidade residia um profeta, tentava contatá-lo. De alguns obtive resposta”, descreve Abelardo Montenegro.

Mesmo a esta altura de seu percurso intelectual, Montenegro ainda se surpreende com novas descobertas. Mesmo em uma conversa rápida, o autor comemora a descoberta recente da existência profetisas, no sertão Paraíba, em meados da década de 1950.

Estado é o grande tema do autor

Polígrafo é a expressão que Abelardo Montenegro usa para definir seu perfil intelectual. Se assemelha aos autores do passado (em que intelectual era sinônimo de pensador com trânsito em diversas áreas) como com a tão falada interdisciplinaridade/ transdisciplinaridade que se discute nas universidades.

Economia, ciências políticas, sociologia regional e psicologia social são algumas das áreas que a bibliografia do autor atravessa. No entanto, é sobretudo no terreno sociológico que Montenegro de destaca. Desde seus primeiros livros, ele demonstrou a intenção de se dedicar exaustivamente à interpretação do Ceará, com destaque para a sociedade sertaneja e seus tipos.

A religião ganhou destaque. Seja em obras que tratam diretamente do tema - como “História do fanatismo religioso no Ceará” e “Fanáticos e cangaceiros” - ou de modo transversal -como em “História do cangaceirismo no Ceará” e nas interpretações da sociologia e psicologia do povo cearense. O interesse pelo tema, explica Abelardo Montenegro, surgiu quando ele ainda estudava no Ginásio do Crato, no final da década de 1920. “Nessa época, aconteceu uma viagem dos estudantes à Juazeiro do Norte. Quem tinha familiares na cidade, segui para casa dos parentes. Eu, como não os tinha, tive o privilégio de hospedar-me na casa do Padre Cícero. Conversar com ele à respeito de História. Era um homem muito inteligente. À tarde, ao lado dele e da beata Mocinha (que era quem cuidava do padre à época), assisti à benção aos romeiros. Ver homens de todo o Nordeste vindo à cidade para vê-lo me motivou a pesquisar sobre a religiosidade deste povo”, conta.

PRINCIPAIS LIVROS

O Romance Cearense

Ceará - tentativas de interpretação

Antônio Conselheiro

Cruz e Souza e o movimento simbolista no Brasil

História do Cangaceirismo no Ceará

Variações em torno da Democracia

A Ciência Política no Brasil e outro estudos

História do fanatismo religioso no Ceará

História dos partidos políticos cearenses

Fanáticos e cangaceiros

Psicologia do povo cearense

Dellano Rios
Repórter

Mais informações:

Lançamento do livro ´Ceará e o profeta de chuva´, de Abelardo F. Montenegro. Às 19 horas, no Auditório da Biblioteca Central da Unifor. Contato: 3477.3219

ENSAIO
"Ceará e o profeta da chuva"
Abelardo F. Montenegro
R$ 30
356 páginas
2008
Edições UFC


 

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=540977