Postado
por
Ivan Maurício
em 15/10/2007 15:13
ALBERTO CUNHA MELO (3)
Foto: Júlio Jacobina/DP
Luto na poesia pernambucana Foi enterrado ontem, em Paulista, o escritor Alberto da Cunha Melo, referência da cultura pernambucana no Brasil
Ana Paula Neiva
Da equipe do Diario
O poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, 65 anos, foi enterrado na tarde de ontem Cemitério Morada da Paz, em Paulista. Considerado uma das principais vozes poéticas da literatura brasileira, Cunha Melo faleceu às 19h35 do último sábado, no Hospital Jaime da Fonte, no bairro das Graças. Vítima de uma infecção respiratória, devido a complicações pós-operatórias, ele lutava contra um câncer de fígado. Chegou, inclusive, a realizar um transplante hepático em agosto passado. Atualmente, fazia terapia de recuperação e desde quarta-feira precisou ser transferido para a UTI por conta do agravamento de uma infiltração no pulmão direito.
Desde a noite de sábado, o corpo do escritor estava sendo velado na sede da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), no bairro de Santo Amaro. Parentes e amigos do poeta, que também era jornalista e sociólogo, compareceram ao sepultamento. Segundo Cláudia Cordeiro, 56, sua mulher, mesmo na UTI, ele tinha momentos de lucidez. "Falei com ele pelaúltima vez na quarta-feira. Estava muito assustado e respirava com dificuldade", contou. Cláudia disse ainda que os médicos tentaram reverter o quadro, usando antibióticos, mas infelizmente o marido não resistiu. "Foi uma dor muito grande para toda a nossa família. Alberto era uma pessoa cheia de vida e muito feliz com o que fazia", comentou. O poeta deixou dois filhos homens do primeiro casamento e um casal de filhos da viúva, Cláudia Cordeiro, com quem conviveu nos últimos 30 anos.
A morte do poeta pernambucano foi lamentada e considerada uma grande perda para a literatura do país. "Ele marcou época da revolução de 60 com a sua poesia consistente e encantadora", lembrou o escritor Waldênio Porto, presidente da Academia Pernambucana de Letras. Quem conheceu Alberto de perto fez questão de ressaltar que ele estava sempre preocupado com as injustiças sociais. "Era um homem que lutava por seus ideais de justiça e cidadania. Um filho ilustre, amigo e leal", comentou o presidente do Cepe, Flávio Chaves, também integrante da APL, de quem o poeta era assessor especial.
Trajetória - Nascido em Jaboatão dos Guararapes, em 1942, José Alberto Tavares da Cunha Melo se orgulhava em dizer que era neto e filho de poetas. Em sua vasta obra, há vários poemas que protestam contra a opressão e injustiça social. Deixou 16 livros, dos quais 13 são de poesia. Seu primeiro livro, Círculo cósmico, é datado de 1966. No ano passado, foi agraciado com o Prêmio Poesia, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos, da Editora Girafa. Mas por conta do agravamento do seu estado de saúde, nem chegou a recebê-lo. Em 2002, também foi indicado para o Prêmio Nacional Jorge Amado.
Nos anos 80, Alberto foi editor do Suplemento Cultural do Jornal do Commercio, também atuou por 11 anos na Fundação Joaquim Nabuco. Assinou a coluna Marco Zero, da revista Continente Multicultural, editada pela Cepe. Foi editor da revista Passárgada, além de colaborar com a coluna Arte pela Arte, do Jornal daTarde. Chegou ainda à vice-presidência da União Brasileira de Escritores de Pernambuco.
Mas foi na década de 90 que seus poemas ganharam novos rumos, conquistando além do público brasileiro, o leitor do exterior. A obra Yacala, lançada pela Universidade de Évora, em Portugal, traz prefácio do crítico literário e professor da Universidade de São Paulo, Alfredo Bosi, que o declarou como um dos principais poetas brasileiros.
http://www.pernambuco.com/diario/2007/10/15/viver1_0.asp