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Postado por Ivan Maurício em 30/09/2007 23:28

ANTÔNIO BANDEIRA (5)
Arte abstrata de Antonio Bandeira: em Paris, o artista cearense abraçou a nova forma de expressão (Foto: Divulgação)

Neste artigo, o curador de arte Max Perlingeiro fala da chegada da Arte Abstrata ao Brasil e a adesão de Antonio Bandeira ao movimento

A arte abstrata chega ao Brasil no final da década de 1940, apresentada em São Paulo numa grande exposição denominada “Do figurativismo ao abstracionismo”, confrontando arte figurativa (de representação da natureza) e arte abstrata (subjetiva), considerada a vanguarda das artes plásticas, organizada pelo crítico belga Leon Degand para o Museu de Arte Moderna. A mostra reunia 95 obras, sobretudo de artistas europeus. Participaram grandes nomes como Jean Arp (1887-1966), Alexandre Calder (1898-1976), Waldemar Cordeiro (1925-1973), Robert Delaunay (1885-1941), Wassily Kandinsky (1866-1944), Francis Picabia (1879-1953) e Victor Vasarely (1908-1997).

Neste momento, dois brasileiros, pelo menos, precederam os nossos artistas abstratos, mas ambos radicaram-se em Paris e poucas influências tiveram na fase de desencadeamento da arte abstrata no Brasil: Cícero Dias (1907-2003), que vinha de uma notável carreira em arte figurativa, e Antonio Bandeira (1922-1967), cuja trajetória foi bem diferente. Começa com sua vinda para o Rio de Janeiro, integrando um grupo de jovens artistas cearenses. Em 1945, o grupo expõe na livraria Askanasy, situada na rua Senador Dantas, dirigida pelo escritor polonês Miécio Askanasy. A mostra foi organizada pelo pintor suíço Jean Pierre Chabloz (1910-1984) e patrocinada pelo Clube Cearense e Associação de Cultura Franco-Brasileira. No ano seguinte faz sua primeira individual no IAB. Nesta época é um artista figurativo ligado aos expressionistas. Recebe uma bolsa de estudos do governo francês, que mal dava para alimentá-lo, e vai para Paris. Apesar de continuar figurativo logo se viu atraído pela abstração. Porém, a adesão à abstração foi mais pronta e profunda. Bandeira chegou mesmo a associar-se de perto, em Paris, ao pintor alemão Alfred Otto Wolfgand Schultz, dito Wols (1913-1951), também ali residente, que se tornou uma das figuras mais importantes da pintura abstrata do pós-guerra, fundando com ele e com Camille Bryen (1907-1977) o grupo Banbryols, cuja existência alguns historiadores contestam. Bandeira sempre evitou comentar influências, mas em 1950 respondendo a um jornalista afirmou: “Não é fácil falar de influências. Devo muito a Wols, que é meu mestre e amigo. Mas é sobretudo a Paris, fermento de arte e de inteligência, que sou reconhecido”.

O crítico Jayme Mauricio, um especialista no assunto, comenta: “O primeiro artista moderno que sistematicamente proclamou e praticou a abstração foi Wassily Kandinsky. Suas primeiras pinturas abstratas foram compostas por volta de 1910. Grande teórico e pensador, Kandinsky estabeleceu todo um conceito em torno da pintura abstrata, apresentando-a como uma arte de tônica espiritualista”.

Segundo ele, a pintura abstrata, tal como a boa música em geral, se desinteressa do mundo material e volta-se de preferência para o espiritual. É, porém, muito significativo o fato de Kandinsky ter praticado uma arte de cunho expressionista antes de sua conversão a uma arte originalmente abstrata. O mesmo acontecendo com Bandeira.

No Brasil, a abstração foi considerada por muitos artistas e intelectuais como uma manifestação passageira, até mesmo uma ameaça. Rubem Navarra comenta a exposição no Instituto de Arquitetos no Brasil do jovem artista cearense, recém-chegado ao Rio de Janeiro, que antecedeu a sua ida para a França (...)

"Diário do Nordeste", 30/9/2007:

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=474554