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Postado por Ivan Maurício em 11/11/2007 02:52

ANTÔNIO CONSELHEIRO (2)
Cento e dez anos depois do Massacre de Canudos, José Celso Martinez Corrêa apresenta o espetáculo Os Sertões em Quixeramobim (CE), cidade natal de Antônio Conselheiro

"Nascido em Quixeramobim, onde viveu até a idade adulta, chegou a ser famigerado em todo o País, por ter sido um líder capaz de mover e comandar um exército. Insubmisso, abalou o Brasil inteiro na suposição de que era uma insurreição contra a República nascente. Esquizóide, paranóico, louco; era o diagnóstico dos médicos. Seu pai, Vicente Mendes Maciel, era comerciante nesta cidade, considerado, por muitos, digno de caráter. Ah... esqueci o resto...", interrompe a narração. Em uma casa quase de esquina, na Rua da Cruz, em Quixeramobim, seu Marcílio Maciel narra, para quem quiser ouvir, a história do bisavô: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. Em um caldeirão fervente, seu Marcílio vai misturando histórias que ouvia do pai e dos tios, recortes de jornais e revistas, trechos de livros e relatos de quem leu Os Sertões (de Euclides da Cunha) - porque ele mesmo "nunca ganhou" um exemplar. Em alguns cadernos, seu Marcílio rascunha histórias vindas desse caleidoscópio.

Conta, modulando a voz e interpretando gestualmente, as pelejas entre os Araújo e os Maciel, ainda nos anos 1830 (a briga entre os dois clãs se deu por conta de roubo de gado e foi permeada por mortes dos dois lados). Conta como Antônio nasceu filho de Vicente e Maria Joaquina de Jesus (na fazenda Santo Antônio do Boqueirão, na então Vila de Quixeramobim, 1830). Como perdeu a mãe cedo, teve uma "madrasta má", aprendeu latim e passou a cuidar do comércio do pai; como se casou com prima Brasilina e com ela teve três filhos. Como já sofria influência de Padre Ibiapina, missionário no sertão, que construía cemitérios e reformava igrejas. Como a esposa o traiu, como ele saiu errando pelo sertão. Semana passada, seu Marcílio comprou uma caneta preta de "tinta bem grossa". Ia começar a escrever sobre a expedição de Antônio Moreira César, o Treme-Terra, ao Arraial do Belo Monte. Ele tem pressa: o texto precisa ficar pronto até quarta (14), para ser lido aos convidados que devem chegar à cidade para o espetáculo Os Sertões.

Uma cidade que, por muito tempo, enjeitou o filho famigerado. Aquele que, na errância pelo sertão, uniu um séquito de milhares de sertanejos desvalidos na vila de Canudos (Nordeste da Bahia), fundando, em 1893, o autogestionado Arraial de Belo Monte. Quixeramobinense de 63 anos e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, seu José Aírton Vieira afirma que, durante sua infância e adolescência, "Antônio Conselheiro era um desconhecido". Ou não povoava histórias ou aparecia "como um doido, chifrudo, seboso, com a cabeça doida, que saiu endoidando o povo afora". Irmã Teresa Cristina, da Comissão Pastoral da Terra, conta que em 1993, centenário do Arraial, foi feita uma grande romaria na cidade. "Eu morava em Quixadá. Chegando aqui, me surpreendi. Era chacota, pornografia. A história dele me encanta. Em termos de organização, de irmandade, fraternidade", conta ao O POVO, antes de pedir à Secretária de Cultura de Quixeramobim, Terezinha Oliveira, sua cota de ingressos para Os Sertões.

Seu Marcílio, seu Zé Aírton e Irmã Teresa Cristina, a partir da próxima quarta-feira, vão assistir à alucinante montagem de Os Sertões em Quixeramobim, feita por José Celso Martinez Corrêa, há 50 anos à frente do Teatro Oficina (SP), responsável por espetáculos antológicos (como Roda Viva e Boca de Ouro). Acalentado há décadas, o projeto visa ao "desmassacre" de Canudos - tanto a cidade atual, que continua pobre e com problemas como falta de irrigação, quanto o imaginário sobre o episódio, ainda aprisionado. "O Antônio Conselheiro é, realmente, uma figura excepcional. Tem a grandeza de Jesus Cristo, Maomé, Buda." (...)

"O Povo", 10/11/2007:

http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/744014.html