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Postado por Ivan Maurício em 02/10/2007 00:50

BRÁULIO TAVARES (1)
BRÁULIO TAVARES - ENTREVISTA

Tendo em vista o recente lançamento do seu mais novo livro “Os martelos de Trupizupe”, o escritor, poeta, compositor, teatrólogo, roteirista, estudioso da cultura popular, o paraibano radicado no Rio de Janeiro desde 1982, Bráulio Tavares, concedeu esta entrevista para o Guia de Poesia.

Além de poeta, escritor e compositor, Bráulio Tavares estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992), é colunista de jornal e escreve roteiro para shows, cinema e televisão.

Nasceu em Capina Grande , na Paraíba, em 1950, morou em Belo Horizonte e Salvador, e vive no Rio de Janeiro desde 1982.

Gentilmente Bráulio Tavares conversa conosco acerca de sua poesia, teatro, música, projetos, Internet e muitas outras coisas desse multifacetado autor.

GP - Bráulio, você é um artista de muitas inquietações e mexe em muitas áreas. Primeiro vamos falar de poesia já que estamos num Guia de Poesia. Conta, então, como foi que você chegou à poesia?

Bráulio: Sou de uma família de poetas, pelo lado paterno. Meu pai me ensinou desde cedo (e à minha irmã , Clotilde) a decorar sonetos, além de regras básicas de métrica e rima. Ele sabia centenas de sonetos de cor, era capaz de recitar durante horas, quando juntava os amigos em casa para beber e tocar violão. Com 10, 11 anos de idade eu sabia de cor inúmeros poemas de Castro Alves, Augusto dos Anjos, Olavo Bilac. Ler poesia lá em casa era mais ou menos como ver televisão nas casas de hoje em dia. Era uma atividade normal da família, e eu estranhava quando via que meus colegas de escola não sabiam as coisas que eu sabia. A partir dos 16 anos descobri Drummond, os modernistas, etc. Aos 20, comecei a me interessar pelo cordel e pelos poetas populares nordestinos. É tudo a mesma coisa. Leio poesia quase todo dia. De vez em quando "descubro" um poeta e fico digerindo tudo dele. No momento tenho lido muita coisa de Rudyard Kipling e do americano Robert Service, são dois caras que têm uma melodia métrica espantosa, é cordel puro, dá vontade de cantar em voz alta. Uma beleza.

GP - Você estreiou em livro com "A pedra do meio-dia, ou Artur e Isadora", em 1979 e, depois em 1980, com "As baladas de Trupizupe", ambos de cordel. Fala um pouco desta identidade do seu trabalho com a literatura de cordel.

Bráulio: Entre 1972 e 1976, morando em Campina Grande , minha cidade natal (de onde saí algumas vezes) fiquei amigo de cantadores de viola, e ajudei a organizar o Congresso Nacional de Vileiros, um festival que acontecia todos os anos. Era a época em que havia no Brasil inteiro a produção chamada "poesia marginal", "poesia independente", "geração mimeógrafo", etc. Eram poetas que publicavam seus livrinhos de maneira artesanal, e promoviam recitais. Eu achava que os poetas cariocas e paulistas estavam refazendo o caminho que os poetas populares nordestinos tinham feito na virada do século 20, a partir de 1890: se não é possível publicar livros de verdade, publiquem-se livros "alternativos", e leve-se a poesia recitada para o meio da rua. O cordel surgiu assim.
Resolvi usar, em vez do mimeógrafo (que aliás teria sido mais fácil, meu pai tinha mimeógrafo em casa), o formato dos folhetos de cordel. Publiquei estes dois títulos em Campina Grande , e em 1981 publiquei em Olinda "Cabeça elétrica, coração acústico". "A pedra do meio-dia" é um cordel tradicional, indistinguível dos cordéis "autênticos". Os outros dois não, são meras coletâneas de poemas e canções.