Postado
por
Ivan Maurício
em 10/03/2008 14:18
CANÔ VELOSO (1)
Dona Canô Velloso é exemplo bem-sucedido na arte de exercer o delicado poder feminino
Pablo Reis
Em 100 anos de vida, dona Canô jamais precisou trabalhar fora para ser respeitada em Santo Amaro e no Brasil como uma mulher bem-sucedida. Não precisou de títulos acadêmicos para distribuir sabedoria como um oráculo feminino de um metro e meio de altura, e mesmo em mais de 50 anos de casamento jamais ficou à sombra do marido. Quando questionada sobre a fama nacional, resume com modéstia, dizendo que o mérito é apenas ter tido dois filhos famosos na música (Caetano Veloso e Maria Bethânia). Dona Canô, com 100 anos de idade, consegue exemplificar como é ser mãe e personalidade em uma sociedade contemporânea.
A convivência de 53 anos com o telegrafista-chefe da Companhia de Correios e Telégrafos, José Telles Velloso, o Zeca, jamais inviabilizou qualquer realização dela. Bem instruída, superou a origem humilde na roça, com estudos em colégio particular, aulas de piano e francês, bancados pela abastada família de dona Sinhazinha Batista, esposa de um senador, que lhe deu abrigo. Cantava para as crianças e costumava estimular o lado artístico nelas.
Claudionor Viana Telles Velloso nasceu a 16 de setembro de 1907 e ganhou o apelido Canô (hoje, uma espécie de mantra cantado em verso e prosa) ainda criança, porque um menino não conseguiu pronunciar o nome de batismo corretamente.
O corpo miúdo tem fragilidade apenas aparente. Canô dedica à religiosidade o jeito aguerrido, a fortaleza disfarçada pela expressão cândida de senhorinha. Quem não rezou a novena de dona Canô? Imagens de santos – o quarto dela reúne uma coleção que os filhos não conseguem calcular –, colares, fitas do Senhor do Bonfim ficam espalhados pela casa, adornos da devoção. Cada festa típica em homenagem a um santo tem seu próprio ritual. Ela celebra São Pedro, faz o caruru de São Cosme e São Damião, a trezena de Santo Antônio e, no São João, abre as portas da casa para uma mesa farta com canjica, milho cozido, amendoim, bolos e licores. Em fevereiro, lidera a tradicional lavagem da escadaria da Igreja de Nossa Senhora da Purificação.
Há 60 anos, ela escolheu morar no sobrado branco de janelas azuis, vizinho da Igreja do Amparo. Na residência, que é lar e santuário para os santoamarenses, as evidências da importância de reverenciar Canô, como se fosse uma sacerdotisa popular. Por lá estão fotos da matrona com artistas, personalidades e políticos – de Lula ao ex-senador Antonio Carlos Magalhães.
É uma pitonisa da comunidade. Sua casa é regularmente visitada por amigas que só querem papear. Tudo termina virando uma boa conversa: a festa de largo, a preparação da novena, a inauguração da obra, um simples resfriado. Ela recebe desconhecidos, turistas, fãs que procuram no n° 179 da Avenida Ferreira Bandeira o esplendor de vivacidade da maestrina de Santo Amaro. Lá, eles encontram a sabedoria da decana e a amabilidade do filho Rodrigo, que dedica boa parte do tempo da aposentadoria à convivência com a mãe.
Canô chegou aos 100 anos lamentando não poder dedicar tanto tempo quanto gostaria às suas atividades. “Trabalho não faz mal”, costuma repetir ela. Seguindo a recomendação dos filhos e dos médicos de não se esforçar em demasia, prefere passar boa parte do tempo sentada para evitar uma queda e alguma possível fratura.
Também não fica exultando a própria idade, como se fosse uma marca cronológica atingível apenas por felizardos. Antes de fazer aniversário, chegou a visitar uma vizinha na festa de comemoração dos 102 anos dela e, por isso, não acha tão incomum assim alcançar a idade centenária. Nas redondezas, dona Chica tem 102, dona Domingas completou 102; Zezinho Belmont está com 103 ou 104, Voinha passou dos 100. No centenário, a matriarca recebeu um selo comemorativo dos Correios, justamente a empresa que o marido Zeca dedicou o trabalho. (...)
http://www.correiodabahia.com.br/aquisalvador/noticia.asp?codigo=149163