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Postado por Ivan Maurício em 25/11/2007 09:01

CAPIBA (1)
A falta que ele me faz…

Por Leonardo Dantas Silva

Neste mês de outubro, se vivo fosse, Capiba estaria completando 103 anos.

Em louvor ao frevo, no ano do seu centenário, a cidade se vestiu no último Carnaval de luzes e cores, povoada por grandes bonecos, sombrinhas multicoloridas, guizos, risos e sons dos mascarados, em cada esquina. Passistas frevolentos pontificaram nas diversas esquinas, a mostrar suas habilidades aos primeiros acordes das fanfarras de metais, executando com graça a coreografia do passo. Rostos pintados, a esconder semblantes antes tristonhos, desfilaram apressados diante de mim, fazendo anunciar a volta do reino azul da folia de há muito esperado pelos mais autênticos pernambucanos.

No meu dia-a-dia, no entanto, a ausência de meu bom amigo, companheiro de tantos carnavais, me deprime… A cidade encontra-se colorida, mas junto a mim está faltando Capiba, que por mais de trinta carnavais foi meu parceiro naquele Reino Azul da Fantasia. Carnavais em que juntos cantávamos, acompanhando a multidão, os sucessos por ele mesmo compostos: Cala boca, menino (1966), Oh! Bela (1970), Catirina meu amor (1971), De chapéu de sol aberto (1972), Frevo e ciranda (1973), Juventude dourada (1975), O amigo do rei (1977), Frevo da solidão (1978), Trombone de prata (1979), E eu drumo (1980), A turma da boca livre (1982), Recife, que beleza (1985) e uma infinidade de outros a embalar a nossa alegria.

Foram tantos os carnavais, foram tantas as histórias que nós as perdemos num passado que restou e que hoje se transforma nesse amontoado de saudades. Recordações daqueles tempos felizes e tranqüilos, quando só voltávamos para casa com o sol ofuscante a sorrir dos nossos semblantes de foliões empedernidos.Tempos dos Bailes da Saudade, iniciados por mim em 1972 e por dezoito vezes repetidos; das gravações na Rozenblit; da primeira Frevioca, por nós inaugurada no Carnaval de 1980; das noitadas no Clube Português; das festas que marcaram os seus 80 anos (1984), com ele e Zezita desfilando conversível oficial do Governo do Estado, ladeado por uma guarda de cavalaria; das eliminatórias do Frevança (o mais importante concurso de música carnavalesca já realizado no Recife); dos almoços de todas as semanas e, mais recentemente, dos acertos-de-marcha do Bloco da Saudade.

Tempos por ele descritos, pintados com cores fortes e alegres, quando compôs, em 1970, É hora de frevo (RCA BBL 1489): Quem quiser me ver / Me procure aqui mesmo/ Quando chega o carnaval / Seja noite ou dia / Aqui tudo é alegria / E alegria não faz mal/ É aqui que eu danço/ Aqui é que eu canto / Aqui é que eu faço / Com desembaraço / Misérias no passo! / Na quarta-feira / Quando tudo terminar / Eu espero mais um ano, / Até o frevo voltar.

Assim era este meu Capiba, ao irradiar a sua alegria infantil que a todos contagiava. Ao seu lado a vida parecia nunca ter fim e sua presença seria uma constante até o final da minha caminhada.
Nos últimos dias de 1997, Capiba, o meu companheiro de mais de trinta carnavais, começou a ensaiar o seu adeus. E eu que acreditava na sua eternidade senti, no último encontro, o sabor da despedida.
De mansinho ele se foi do meu convívio e hoje, quando vivemos mais um carnaval, justamente no ano do primeiro centenário do frevo, é que eu sinto a falta que ele me faz…

Nesses dias, em que o Recife parece tomado por risos dourados e bocas pintadas a cantar as suas melodias, enchendo de sons os antes tristes recantos, vejo-me vagando pelas ruas, como um órfão perdido no meio dessa multidão, procurando enganar os meus próprios sentimentos.Na minha solidão, a sua presença… Para o meu consolo, a sua saudade… E assim sozinho, com o rosto tomado pelas lágrimas, irei assim, sem destino, cantando, baixinho, os versos que ele mesmo me ensinou: Vivo nas ruas cantando / Um canto que me convém / Para fugir da tristeza / E da saudade também
(...)

http://sonialopes.com.br/index.php/2007/11/21/a-falta-que-ele-me-faz/