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Postado por Ivan Maurício em 09/12/2007 12:32

CARLOS PENA FILHO (2)
Carlos Pena, o poeta do Recife *



Por Urariano Mota





Este blog é de utilidade pública, por isso merece o trabalho.



Do imenso poema “Guia prático da cidade do Recife”, digito, não copio, digito letra por letra, sílaba por sílaba, somente o começo e o fim do retrato sentimental mais belo do Recife:


“O INÍCIO

No ponto onde o mar se extingue
e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram seus flancos
trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena, flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa”

E o magnífico encerramento:

“O FIM

Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não
este é o teu retrato feito
com tintas do teu verão
e desmaiadas lembranças
do tempo em que também eras
noiva da revolução.”

E copio agora dois sonetos.

“SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


A SOLIDÃO E SUA PORTA

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),

quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
deste mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.”

As informações de cartório dizem que Carlos Pena Filho morreu no dia 1º de julho de 1960, vítima de um acidente automobilístico, aos 31 anos.


* Comentário que fiz ao blog de Luis Nassif, e ele, gentilmente, destacou na seção Crônicas.

http://urarianoms.blog.uol.com.br/