Postado
por
Ivan Maurício
em 03/03/2008 18:20
CEGO OLIVEIRA (1)
CEGO OLIVEIRA,
"NEGRA LUZ PARIDA
DAS ENTRANHAS CEGAS"
Esta pequena galeria de grandes nomes da comunidade cega do Ceará estaria capenga não incluído fosse o nome de Pedro Oliveira, o Cego Oliveira de Juazeiro do Norte, afilhado do Padim Cícero, dono de uma intuitiva capacidade de narrar, em versos, as lendas e estórias da terra caririense e das muitas outras de que ouviu falar sem poder vê-las.
Cego Oliveira situa-se no mesmo pedestal de Aderaldo, de Sinfrônio, de Esmeraldino e muitos outros que, de viola ou de rabeca na mão e canções na alma, encantaram não somente os sertanejos simples e anônimos nas feiras e nos alpendres, mas impressionaram vivamente auditórios ilustres pelo Brasil afora.
De seu talento, de sua obra, de sua figura sofrida e humilde a esconder a força de uma inteligência invulgar, cuidou carinhosamente o cineasta Rosemberg Cariri, responsável pelo resgate de valioso acervo da cultura popular cearense, de modo muito particular dos seus pagos araripinos.
Rosemberg produziu o filme "Cego Oliveira – Rabeca & Cantoria", no qual preserva muita coisa da criatividade encantadora desse artista nascido na pobreza dos rincões remotos do sul do Ceará. Também por iniciativa de Rosemberg, com apoio da Secretaria da Cultura e Desporto ao tempo do Governo Ciro Gomes, tendo como Secretário o poeta Augusto Pontes, existe um LP contendo em seus dois lados vinte e duas músicas do folclore cearense na interpretação de Cego Oliveira, com participação especial de seu irmão, Zé Oliveira. O disco é um documentário de ouro da riqueza musical do Ceará e do Nordeste, valorizado pelo imenso poder de sentimento contido na voz e no som da rabeca de Cego Oliveira.
CONTANDO A PRÓPRIA HISTÓRIA
Para o filme que produziu e dirigiu, Rosemberg Cariri colheu vasto depoimento de Pedro Oliveira, do qual extraiu esta síntese em que o famoso cantador e violeiro conta detalhes de sua vida:
"Bem, meus senhores, não vou contar para "vosmecês", nem toda a minha vida e nem todo o meu sofrimento. Dou uma explicação... Meus pais eram José Cazuza e Maria Ana da Conceição, eram alagoanos e vieram para Juazeiro em 1904. Chegando aqui foram morar no sítio Baixio Verde, mas meu batizado foi em Juazeiro e quem me batizou foi o meu Padrinho Cícero. Quer dizer que eu sou de Juazeiro, que no lugar onde a gente se batiza é que é o natural da gente."
"Nasci cego e fui me criando no sofrimento, na obrigação de pedir esmolas, o que eu achava muito ruim... Pedi a Deus que me desse uma luz, um seguimento, para eu deixar esta vida de porta em porta. Quando foi no ano de 1929 um tio meu comprou e me deu uma rabequinha. Bem, eu fui tentando, tentando, comecei a aprender... Aí Nosso Senhor me deu este dote de eu pegar em cantoria."
O rapazola nascido em terras do Crato e abençoado no Juazeiro por Padre Cícero arranhava bem a rabeca aí pelos começos dos anos trinta e recebia o apoio do irmão, o Zé, que ao contrário dele – tolhido pela cegueira – aprendera a ler. Passemos a palavra novamente a Pedro Oliveira:
"Meu irmão sabia assinar o nome e lia para mim os versos dos "rumances". Lia uma quadra e eu decorava, lia outra quadra e eu decorava... Aí cheguei a cantar mais de 75 "rumances"... Primeiro aprendi os versos do "Preguiçoso", depois desembestou: "Princesa Rosa", "Pavão Misterioso", "Negrão André Cascadura", "João de Calais", "Zezinho e Mariquinha", "Juvenal e o Dragão", "O Capitão do Navio", "Coco Verde e Melancia", "A Peleja do Zé Pretim com Cego Aderaldo"... Era um mundo de poesia. Aprendi também muitas cantigas bonitas. Eu aprendia com o povo, nesse tempo não tinha rádio e essas coisas modernas que tem hoje. O povo cantava e eu aprendia. Tinha muita música bonita, de amor, de gracejo, de causos de valentia, de reinos encantados... Essas músicas navegavam no mundo. Eu toquei muito nos "Reisados", depois perdi o gosto... (...)
http://www.sac.org.br/60_ANOS_133.htm