Postado
por
Ivan Maurício
em 02/12/2007 12:34
CELSO FURTADO (3)
OPERÁRIO DA JUSTIÇA
Por Rafael Capanema
Saiu do sertão paraibano o nosso maior economista. Em seus mais de 30 livros, que venderam cerca de um milhão de exemplares em todo o mundo, pensou formas de superar o subdesenvolvimento. Orgulhava-se de ter sido nada mais que um servidor da coisa pública, nunca vinculado a empresas privadas e sempre em governos civis. Dedicou a vida à construção de um País e um mundo mais justo.
Pombal, sertão da Paraíba, 1924. Uma enchente destrói a parte dos fundos da casa onde Celso jogava bola. A panela de feijão vira em cima dele, causando-lhe queimaduras.
Eu venho de um mundo que me parecia catastrófico. Pombal é das cidades mais ásperas do sertão. Região seca, de homens secos. Muito menino, eu olhava pela fresta da janela a chegada dos cangaceiros, relembra aquele que foi o economista brasileiro mais importante de todos os tempos.
Nascido em 26 de julho de 1920, Celso Monteiro Furtado descobriu a paixão pela História aos 14 anos. Vieram-lhe depois numerosos interesses: Literatura, Sociologia, Música. Em 1940, ingressou na faculdade de Direito no Rio de Janeiro, mesmo ano em que começou a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Aprovado em concurso do Departamento Administrativo do Serviço Público em 1943, começou carreira de funcionário público, na qual se manteve até o fim da vida.
No último ano da faculdade, em 1944, já estava desinteressado pelo Direito e decidido a enveredar pela Economia. Pracinha da Força Expedicionária Brasileira, foi para a Europa no ano seguinte. Chegou em janeiro de 1945 à Itália, onde sofreu um acidente durante a ofensiva final dos aliados.
Teve carreira de ascensão rápida. Tornou-se doutor em Economia pela Universidade de Paris em 1948. No ano se guinte, passou a servir em Santiago do Chile na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão da ONU dedicado à reflexão sobre as economias periféricas. Destacou-se no grupo de técnicos, redigindo muitos dos documentos básicos da instituição. Em 1953, elaborou o Estudo de um Programa de Desenvolvimento para o Brasil, uma das bases do Programa de Metas do governo de JK.
Deixou o Cepal em 1958, voltando ao Brasil para assumir a diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Formulou o plano que resultou na Sudene (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste), instituição da qual foi nomeado superintendente. Nesta que foi uma das épocas mais brilhantes de sua trajetória, coordenou ações como a colonização do Maranhão, projetos de irrigação no semi-árido e cultivo de plantas resistentes à seca. Atuou, mais tarde, nos governos de Jânio Quadros e João Goulart, como ministro extraordinário para Assuntos de Planejamento e Desenvolvimento.
DECIFRAR O BRASIL
Em 1964, o golpe militar lhe cassou os direitos políticos. Partiu para o exílio. Lecionou em Harvard (EUA), Cambridge (Inglaterra) e foi o primeiro estrangeiro a trabalhar na Sorbonne (França). Publicou dezenas de livros no exterior, como Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina e Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico. Em missões de agências das Nações Unidas, rodou o mundo.
Sobre a experiência no exterior, registrou: O fato de viver fora, de trabalhar numa equipe internacional, me obrigou a enfrentar esse desafio que era decifrar o Brasil, entender onde estavam os erros. Será que nós, brasileiros, éramos realmente inferiores, como muita gente insinuava? Ou será que a classe dirigente brasileira é que não tinha política, não tinha uma visão clara das coisas, não tinha projeto para alavancar o País?
Furtado veio ao Brasil poucas vezes durante o exílio, para participar de debates e seminários. Com a Anistia, em 1979, começou a se reinserir na política brasileira.
Durante a redemocratização, foi convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves a integrar a comissão de notáveis que elaboraria o Plano de Ação do Governo. (...)
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