CEZINHA DO ACORDEON (1)
Timbre e estilo vocais do músico são semelhantes aos de Dominguinhos Foto: Arquivo Pessoal
Para sanfoneiro que não canta, só toca sanfona, a estrada fica mais difícil. Coisa parecida foi dita há muito tempo por Luiz Gonzaga a Dominguinhos. Há pouco tempo, foi a vez de Dominguinhos repassar o conselho: incentivou Cezinha do Acordeon, a quem conhecia desde adolescente, a cantar também. O jovem instrumentista já tem um bom currículo como músico (de palco e de estúdio) ao lado de diversos cantores: Elba Ramalho, Nando Cordel, Marinês, Genival Lacerda, Antônio Nóbrega, Daniela Mercury, o próprio Dominguinhos, entre vários outros. Na sua carreira solo, despontou como um virtuose, já tendo tocado ao lado de Wagner Tiso, no Teatro do Parque e ter integrado shows e gravado no CD de outro instrumentista, o flautista César Michiles. O primeiro CD, graças ao conselho do mestre e "padrinho", veio com a voz e as composições próprias de Cezinha, que passou a escrever quase ao mesmo tempo em que descobriu o canto. Descobriu não, revelou, pois quem o ouvir cantar, irá se surpreender. Primeiro com o fato de um músico que a vida toda (até aqui, claro) foi tocador, de repente aparecer cantando tão bem. Depois, pelo seu timbre e estilo vocais serem bem semelhantes aos de Dominguinhos.
O primeiro CD de Cezinha do Acordeon, Convidando a transbordar (Independente), será lançado com um pocket show, hoje, a partir das 19h, na loja Passadisco (Shopping Parnamirim). O músico também fará show no Frida, no sábado, com a participação de Santanna, que colocou voz numa das faixas do álbum. Gravado em fevereiro de 2007, em São Paulo, o disco foi produzido por Dominguinhos, Guadalupe e Sandro Haik. Os músicos que acompanharam Cezinha tocam também nas bandas de Ney Matogrosso e Maria Rita. Como o próprio Haik, que colocou os baixos e guitarras, e é da banda de Ney. Guadalupe (primeira mulher de Dominguinhos) e a filha dele, Liv Moraes (que estreou também em carreira solo), fizeram os vocais femininos que estão no CD. Ritmos como xotes, quadrilhas, baiões e também instrumentais mais livres são explorados no álbum.
Instrumentista começou a tocar depois que o pai comprou a sanfona de um amigo que precisava de dinheiro para viajar; "Foi o destino mesmo", analisa
Outro mérito do CD de Cezinha é que ele se diferencia da maioria das produções de forró. Cezinha é sim da escola do xote e do baião, mas ter gravado com músicos de outros estilos deu mais liberdade estilística ao álbum. A temática romântica se evidencia, mas Cezinha segue a cartilha do mestre que o incentivou e consegue compor de uma maneira poética sem os clichês românticos brejeiros, tão comuns entre vários artistas do gênero. O moço tem estilo. Gravou também uma da lavra de Dominguinhos, Depois da derradeira, em parceria com Fausto Nilo, e ainda seus instrumentais, como E aí, seu Domingos (com levadas jazzísticas), e Frevo em Camaragibe.
Sobre a semelhança vocal com Dominguinhos - fato que chega a confundir o ouvinte na faixa sete, em que os dois cantam juntos - Cezinha diz que não há incômodo, muito pelo contrário. "Desde pequeno, quando comecei a cantar, o povo ficava comentando. Para mim está sendo um prazer. Uma forma de não deixar sua história morrer no Brasil. Ele foi pra mim ohomem que urbanizou o forró, é um privilégio me associarem a ele", diz o músico. Cezinha conheceu Dominguinhos quando tinha 13 anos. "Disseram a ele que tinha um rapaz novo que estava tocando e no meu aniversário fui a um show dele. Ele me convidou para tocar uma música com ele, depois mais outra# Depois ele começou a me chamar para acompanhá-lo", conta Cezinha. Justiça seja feita, Cezinha também foi um dos alunos da oficina de sanfona do mestre Camarão, com quem aprendeu muito, mas é um autodidata. Começou a tocar depois que o pai comprou a sanfona de um amigo que precisava de dinheiro para viajar. "Foi o destino mesmo", pontua Cezinha, certamente um artista que aponta uma nova direção para o forró que se faz hoje em Pernambuco.
http://www.pernambuco.com/diario/2008/06/05/viver1_0.asp