Postado
por
Ivan Maurício
em 20/02/2008 14:58
CHICO PINTO (2)
Arquivo pessoal/Reprodução
Chico Pinto, o deputado que denunciou Pinochet
Quinta, 3 de janeiro de 2008
Claudio Leal
Morreu hoje, 19 de fevereiro, em Salvador, o ex-deputado federal Chico Pinto. Estava internado desde 2007, no hospital San Raphael, onde resistia a um câncer. Veio uma infecção urinária e, em seguida, a infecção bacteriana generalizada.
Durante quase um ano, fez de seu quarto de hospital um espaço de memórias. Recebeu amigos e ex-companheiros de partido - Waldir Pires, Sigmaringa Seixas, Airton Sores, Sebastião Nery, Hélio Duque, Alencar Furtado... -, despedindo-se lentamente da vida. Não perdeu a ironia, embora revelasse desencanto com os rumos da política brasileira.
Em 3 de janeiro, Terra Magazine publicou uma entrevista exclusiva com Chico Pinto. Republicamos agora, dia de sua morte. O ex-deputado será enterrado em Feira de Santana, sua terra natal, na Bahia. Deixou uma mulher, Taís Alencar, e uma filha, Taís Alencar Pinto dos Santos. O governador Jaques Wagner decretou luto oficial.
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"Chico Pinto quer falar." Internado no hospital San Raphael, em Salvador, o ex-deputado federal Francisco Pinto, um dos maestros da resistência à ditadura militar no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), deseja gravar suas memórias políticas. Com certa ansiedade, convoca o repórter. Teme perder o impulso.
O recado chega em 1° de setembro de 2007. Há meses, vinha adiando um registro de suas reminiscências. Estimava um tempo mais tranqüilo para alinhavá-las. Àquela altura, porém, dispensava saúde e formalidades. Queria falar.
A história da esquerda democrática, no Brasil dos anos 70, passa pelos discursos e conspirações de Chico Pinto. Em quartéis e encontros sigilosos, ele arquitetou um espinhoso diálogo entre o MDB e os militares nacionalistas.
Dessa estranha alquimia nasceu a candidatura do general Euler Bentes à presidência da República, em 1978, numa artimanha para dividir as Forças Armadas. Participou da articulação o senador de Pernambuco, Marcos Freire, morto em 1987 num acidente aéreo.
Eleito para a Câmara Federal em 1970, Chico Pinto aglutinou parlamentares no Grupo Autêntico do MDB e ajudou a estabelecer os limites entre oposição e governo.
Superava rusgas recentes com os militares. Em 1964, fora deposto da prefeitura de Feira de Santana, na Bahia. Fez, sozinho, sua defesa no tribunal militar. Absolvido, partiu para novo encontro com as urnas.
Em Brasília, percebeu que não era possível atuar sem pertencer a um agrupamento político forte. No jogo interno do MDB, as posições do grupo Autêntico, que criticava sem meias palavras a ditadura, empurravam o comedido Ulysses Guimarães para o enfrentamento com o governo.
- Os autênticos marcaram a vida política no instante em que a ditadura atingia todos os recordes de popularidade. Em 1974, quem votava em branco, nulo, passou a ver que o voto era uma forma de derrubá-la. E isso é conseqüência da atuação de Chico Pinto e dos autênticos - analisa o ex-deputado federal Hélio Duque.
O ex-ministro da Defesa Waldir Pires define:
- Ele resistiu na área de uma política de faz-de-conta, o Congresso Nacional daquela época.
O balé de radicais e moderados encenou a Anticandidatura de Ulysses e do presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Barbosa Lima Sobrinho. Em 1974, os dois reacenderam as artes de uma campanha nacional.
"A luta dos 'Autênticos', como membros do MDB, principalmente no episódio da Anticandidatura, deu ao partido conotação de oposição efetiva, de resistência ao regime militar", avalia a historiadora Ana Beatriz Nader, em "Autênticos do MDB", importante registro de his...
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