Postado
por
Ivan Maurício
em 23/03/2008 17:35
CÍCERO DIAS (1)
"J é Jundya, capital da minha infância"
Escada é um pequeno município distante 53 quilômetros de Recife. O engenho Jundya, hoje inativo, como tantos outros espalhados pela zona da mata, desempenhou papel muito importante no desenvolvimento da economia regional pernambucana. Nele nasceu Cícero dos Santos Dias, em 5 de março de 1907, sétimo filho de Pedro dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros Dias. Seus pais tiveram mas dez filhos: Antônio, Manuel, José, Maria de Lourdes, Pedro, Feliciana, João, Maria, Mário e Rômulo. Cícero é neto do barão de Contendas pelo lado materno. Em Usina (1936) o escritor José Lins do Rego descreve os hábitos e costumes da família de engenho. O espelho para esse livro é a família Santos Dias.
A infância de Cícero foi semelhante a de qualquer menino de engenho, com banhos ruidosos, proibidos, as brincadeiras e traquinagens, a presença do cangaço, as visitas aos engenhos vizinhos, a enchente, a escola, a professora, as primeiras letras, as lições de sexo... Naquela época os senhores de engenho abandonavam em desleixo os filhos, não se importando com a infância. Depois recorriam ao colégio para corrigi-los. Cícero não fugiu a essa regra. Viveu seus primeiros anos pelos engenhos do interior de Pernambuco.
"Eu vivi... intensivamente tudo. Por exemplo: onde nós estamos aqui, onde é o Hotel Boa Viagem, eu tenho a impressão que foi a primeira vez que eu vi o mar, porque as famílias se transportavam dos engenhos para as praias. Primeiro fui para Gaibu e depois Boa Viagem. Eu tenho a impressão que a primeira vez que vi o mar, tenho certeza, foi aqui em Boa Viagem, porque tinha o trenzinho de burro que saía da estação de Boa Viagem e trazia os passageiros p'ra orla marítima."
O mar e a lua são elementos constantes na pintura de Cícero, bem como as lembranças que guarda de tia Angelina e da velha avó, em seu sobrado grande e antigo onde ele passa a residir para terminar o curso primário, já que a escolinha do engenho só alfabetizava os seus alunos.
Nessas recordações, ocupa um espaço grande a babá Maria Bernarda da Silva e seus quitutes. Ela, por sua vez, considerava o garoto como sossegado e bom. Vivia cortando papel, pintando coisas, sonhando...
Em 1920, aos 13 anos de idade, Cícero foi para o Rio de Janeiro, ficando interno no mosteiro de São Bento. Nessa época, alimentado pela leitura precoce e intensiva, desenvolve-se o traço mais marcante de sua formação: a imaginação criativa.
Entre os anos de 1925 a 1927 Cícero conheceu os modernistas. José Lins do Rego descreveu os velhos tempos no Rio, numa crônica entitulada "Cícero Dias em 29", escrita em 1952: a casa de dona Nazareth Prado, o velho Graça Aranha, Jayme Ovale e Anibal Machado inéditos, Manuel Bandeira na rua Curvelo, Murilo Mendes ainda na fase satânica, Di Cavalcanti querendo salvar a humanidade e os restos do futurismo na poesia, as querelas da Semana de Arte dividindo a literatura, João Ribeiro aceitando os novos.
Foi então que apareceu Cícero Dias. Era um menino de engenho com a loucura da arte. Seus trabalhos revelavam o mundo estranho dos canaviais, das paixões furiosas, dos sonhos que eram verdadeiros incêndios dos sentidos.
Em 1928 realizou sua primeira exposição no Rio de Janeiro. A mostra aconteceu paralela ao 1º Congresso de Psicanálise da América Latina. Arte e sonhos falam do/e ao inconsciente. Graça Aranha ao afirmar o quanto os quadros do pintor combinavam com o congresso, provavelmente, não percebeu a dupla conotação de suas palavras. Por outro lado não é o inconsciente quem pinta, a intervenção da ação refletida é fundamental para a produção de qualquer forma de arte, e as imagens oníricas são consideradas como a melhor expressão possível dos fatos ainda inconscientes. Graça Aranha ressaltou ainda que se tratava da primeira manifestação do surrealismo no Brasil, (...)
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