Postado
por
Ivan Maurício
em 02/09/2007 15:14
DELMIRO GOUVEIA (1)
Gabriel e Chagas, desenhistas e estudantes da Escola Delmiro Gouveia, em Ipu (Foto: Natércia Rocha)
90 ANOS DE MORTE
Saga de Delmiro Gouveia começa no CE
Considerado um imperador no Nordeste, a vida de Delmiro Gouveia começa na cidade de Ipu, zona norte do Estado
Ipu. Era 10 de outubro de 1917. O relógio batia oito e meia da noite e o coronel Delmiro Gouveia se balançava numa cadeira de vime, no alpendre de casa, lendo jornais sob o clarão da recém-chegada luz elétrica. Naquele instante, três tiros, disparados da escuridão da rua, interromperam a vida de Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, o cearense que fez fortuna no sertão de Alagoas e entrou para a história como construtor da primeira usina hidrelétrica do Nordeste.
Noventa anos após sua morte, o Diário do Nordeste foi buscar as raízes desse sertanejo visionário, que nasceu na Fazenda Boa Vista, distante duas léguas da então Vila do Ipu, na Ibiapaba. Salvo algumas poucas tentativas escolares de manter acesa a lembrança do filho ilustre, nada mais dele existe por lá. Nem mesmo a casa de vaqueiro onde seu pai, Delmiro Porfírio de Farias (Belo de Farias), ficou escondido após “roubar” a menina Leonila Flora da Cruz (Dona Moça), de 14 anos, que viria ser a mãe do menino Delmiro. Nos sete anos que moraram por lá (1861-1868) foram condenados a viver à margem da sociedade: ele procurado pela polícia por “crime de sedução” e ela difamada por coabitar com um homem casado e pai de mais outros quatro filhos.
Afamado conquistador e popular pela “garbosidade”, quatro anos depois de instalado na zona norte do Ceará, Belo de Farias, que era tenente da Guarda Nacional do Ipu, se alistou no “26º Corpo de Voluntários da Pátria” e foi morrer na Guerra do Paraguai, em abril de 1867. No ano seguinte, quando ficou sabendo da morte do pai de seus filhos, Leonila Flora, que não pôde assumir o posto oficial de viúva do herói morto, criou coragem e voltou para Pernambuco.
No livro “Delmiro Gouveia – O Pioneiro de Paulo Afonso”, o escritor Tadeu Rocha narra as dificuldades atravessadas por Dona Moça nesse Estado. “Sua vida no Ceará não correspondeu à coisa alguma do que imaginara ao pensar em casamento(...) Teve seu segundo filho nascido a 5 de junho de 1863. Ao contrário da menina Maria Augusta, que se batizou na Matriz de Santa Quitéria, o menino Delmiro Augusto não pôde ser levado à pia da Igreja de S. Sebastião, no Ipu(...) Foi preciso esperar a passagem do Coadjutor dessa Paróquia, em viagem de desobriga, para batizar a criança numa capela ou numa fazenda próxima”, afirma. O pesquisador descreve, ainda, o destino da família. “No sertão do Ceará não havia lugar mais para a Curica do finado Belo de Farias(...) E a viúva bastarda não ficou. Pediu aos parentes do herói que a mandassem para sua terra”. Após longos dias e noites sertão adentro, Leonila Flora, aos 21 anos, carregando nos braços os filhos de quatro e dois anos, voltou para Itambé (PE).
Aos 30 anos, Leonila Flora casou-se novamente, falecendo no dia seguinte. Delmiro estava com 15 anos. Hoje, a Fazenda Boa Vista faz parte do distrito que leva o nome de Delmiro Gouveia, menino que saiu do Ceará sem nada, ficou sozinho no mundo aos 15 anos e que, aos 20, dava sinais de que iria construir um império no sertão brasileiro, nos primeiros anos do século XX.
NATÉRCIA ROCHA
Repórter
"Diário do Nordeste", 2/9/2007:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=466601