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Postado por Ivan Maurício em 24/09/2007 00:36

EDUARDO CAMPOS (1)
O prédio do Instituto do Ceará, ali em frente à igreja do Carmo, com a bandeira a meio pau, na luz dourada desta manhã de sexta-feira. O contraste - o fulgor do sol e o luto - decerto combina com o personagem que era presidente da agremiação cultural e científica criada em 1887 pelo Barão de Studart. Eduardo Campos, um dos maiores nomes do teatro cearense do século XX, contista, romancista, ator, locutor de rádio, pioneiro da TV local, foi querido por muitos e ganhou a antipatia de outros tantos. Coisa muito natural, à vida de cada um. Findo o tempo do homem sobre a terra, o que dele sobrará? Afetividades e mal-querenças também se gastam, diluem-se. Restarão as obras. E o legado que Eduardo Campos deixou é muito maior do que as idiossincrasias do antigo manda-chuva dos Diários Associados.

Manuel Eduardo Pinheiro Campos nasceu no dia 11 de janeiro de 1923 em Guaiúba, que era então distrito de Pacatuba, filho do comerciante de café Jonas Acióli Pinheiro e de Maria Dolores Eduardo Pinheiro. Ele estava com apenas quatro meses de nascido quando morre o pai, e por isso fica aos cuidados dos tios João Pereira Campos e Isabel Eduardo Campos (ela, irmã de Maria Dolores) - pais do poeta Artur Eduardo Benevides, seu primo-irmão, também nascido em 1923. Quando ele estava com oito anos, a família vem morar na capital, na então rua do Imperador. É essa Fortaleza dos anos 30 em diante que será o principal cenário de sua vasta obra literária, iniciada na década de 40 no grupo Clã. Alto, alourado, bonito mesmo, a voz bem empostada, Eduardo Campos era a figura do galã - que se rendeu aos encantos da bela Heldine Cortez, com quem se casou para toda a vida. Tiveram um casal de filhos, Eduardo Augusto e Elnina Márcia.

Nos idos de 50, Eduardo Campos ingressa no rádio - paixão a que também se devotou. (Todo dia, dirigindo o próprio carro, o oitentão Manuelito Eduardo batia ponto no Instituto do Ceará, pela manhã, e reservava as tardes a Ceará Rádio Clube, da qual era diretor). Quando a televisão chegou por aqui, no princípio dos anos 60, carregou os grandes nomes do rádio. Eduardo Campos entre eles. A programação da pioneira TV Ceará era toda feita aqui, incluindo teleteatros que revelariam o dramaturgo - além de atores, como Emiliano Queiroz, que atuou em A Morte Prepara o Laço, em 1962. Outro texto de Eduardo Campos, Os Deserdados, produzido nos estúdios do velho Canal 2, chegou a ser finalista em Barcelona, na Espanha, numa competição internacional de programas de TV.

Os anos 60 foram emblemáticos para o dramaturgo. É nessa década que Eduardo Campos escreve algumas de suas peças mais famosas, Morro do Ouro e Rosa do Lagamar, ambas encenadas com sucesso pela Comédia Cearense. Estes textos, além de A Donzela Desprezada, foram reunidos no livro Três Peças Escolhidas, um dos dez indicados ao vestibular da UFC. Em uma entrevista recente, Eduardo Campos disse, sobre suas peças: "O que escrevi representa uma fase importante do nosso teatro. Nem tanto pelo talento literário ou pela própria qualidade dramatúrgica das peças. Mas principalmente pela mensagem que consegui transpor para o palco sobre nossa linguagem, nossos costumes, nosso cotidiano". É este, então, o verdadeiro legado de Eduardo Campos - além das peças, contos, romances e ensaios. O passaporte dele para a eternidade.

"O Povo", 23/9/2007:


http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/731092.html