FRANCISCO SALES AREDA (2)
"Ele é tão grande quanto os maiores, tenho uma admiração enorme pela obra dele." É o imortal Ariano Suassuna quem avalia, comparando o poeta Francisco Sales Areda aos clássicos Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, e fazendo questão de frisar que a única diferença é que Francisco Sales Arêda é um clássico o qual teve a sorte de conhecer. "Tenho especial admiração e predileção pelo folheto O homem da vaca e o poder da fortuna, em que me baseei para escrever A farsa da boa preguiça."
Aliás, esse cordel, com Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha e o livro de época A pranteada morte de Getúlio Vargas estão, conforme declarou Arêda, entre os que mais saíam, quando andava pelas feiras, cantando e vendendo os próprios trabalhos.
"Filho de pais pobres, submetido ao grau diminutivo pela vida afora", segundo ele mesmo, Sales iniciou na poesia aos 15 anos, escrevendo Moço bêbado forçado / por ordens de Satanás / transformou-se um insolente / sem ter o que fazer mais / espancou sua irmãzinha / e assassinou os seus pais.
Chico Sales é a forma carinhosa com que os amigos e poetas o tratam. Dila, José Severino Cristóvão, Manuel Quirino, Olegário Fernandes, J. Borges tiveram o privilégio de conviver com o "crânio de safira", durante algum momento na vida do artista popular que credita ao sobrenome exótico ascendência paterna francesa. Nas andanças pelos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, Dimas e Lourival Batista, Zé Vicente da Paraíba, Pinto do Monteiro, José Soares do Nascimento foram companheiros no baião de viola de quem passou 14 anos cantando desafio, apenas três meses na escola ("unicamente", disse o poeta) e sempre demonstrou, nos versos escritos ou cantados, o domínio completo da métrica, rima e metáfora. Além da extraordinária capacidade de fabulação, da riqueza vocabular, do esmero na construção da narrativa, da rima e metro impecáveis, a construção poética, em Arêda, suplanta o apuro formal e temático. Portanto, não é tarefa difícil compará-lo aos grandes nomes da literatura de cordel.
O ciclo do maravilhoso, das histórias de encantamento perpassa significativa parcela dos folhetos produzidos pelo poeta — que também demonstra um gosto pelo humor refinado, aforismos e metapoesia. A garça branca do bosque e o gênio malassombrado, Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha, O romance de João Besta com a gia da lagoa são apenas alguns títulos das histórias maravilhosas que criou, reunindo personagens fantásticos, reinos misteriosos, príncipe e lagoa encantados, ilha de diamantes, bosque malassombrado. A personagens da raça de anti-heróis, como João Grilo, dedicou As aventuras do amarelo João Cinzeiro Papa-Onça e As presepadas de Pedro Malazarte. Escreveu, também, uns títulos dedicados a profecia, Frei Damião, política e peleja fictícia. É no folheto A grande discussão de Francisco Sales com João José que encontramos os versos do título dsete artigo, numa auto-definição colocada na boca do adversário (Francisco Sales seu crânio / é uma pedra de safira / em repente ou na glosa / poeta nenhum o tira / mas eu vou ver se em duelo / seu couro também estira). Pelas contas de Arêda, para quem "poesia é como um sonho e não é nem toda hora que a gente tem ela", as musas foram muito generosas: calcula ter publicado cerca de 380 histórias de cordel. Isso, sem considerar os 14 anos de cantoria, de 1940 a 1954! (...)
Nascido em Campina Grande, Paraíba, no dia 25 de outubro de 1916 (1915, segundo o batistério), não conseguiu ver completarem-se os 90 anos, pois morreu no dia 20 de dezembro de 2005, em Caruaru, na casa da filha Célia, enfermeira, com quem viveu os derradeiros momentos. Rememorando – mas não à merecida altura – os louros conquistados pela língua da poesia.
*Maria Alice Amorim é jornalista, pesquisadora e fotógrafa.
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez8.htm