Postado
por
Ivan Maurício
em 25/11/2007 18:17
GILBERTO FREYRE (4)
Livro revela Gilberto Freyre em suas contradições
Rafael Dias - Especial pra o Diario
Todo cânone padece de um mal. No caso de Gilberto Freyre, são dois. Mitificada, sua obra, alçada ao panteão do pensamento social brasileiro com o livro Casa-grande e senzala (1933), costuma ser menos lida que comentada. Mais: os poucos que a lêem, polarizaram-na, ao longo do último século, num cabo de guerra entre direitistas e esquerdistas, freyrianos e não-freyrianos. Assim que sua tese sobre a construção de uma sociedade brasileira sincretizada e multiculturalista foi ovacionada, contrariando o pessimismo da corrente determinista (o atraso era atribuído ao calor tropical e ao tráfico de escravos), não faltou quem a classificasse de racista e elitizante - visão preconceituosa que se perpetua até hoje entre os leigos. Passada a refrega de valores morais e políticos, o sociólogo e antropólogo pernambucano passou a ser visto com mais apuro pelos meios acadêmicos, após a sua morte em 1987. Este ano, em que lembram os 20 anos de falecimento do autor, novas obras e projetos em vários estados recontextualizam e reforçam o valor da obra de Freyre.
Um dos lançamentos mais esperados é o livro Gilberto Freyre: Uma biografia cultural, escrito por dois acadêmicos uruguaios radicados no Rio de Janeiro, Enrique Larreta e Guillermo Giucci, que chega amanhã às livrarias de todo país sob a chancela da editora Civilização Brasileira, após dez anos de pesquisas e entrevistas intensos. De Pernambuco, sai do forno daqui a algumas semanas a coletânea Em torno de Gilberto Freyre - ensaios e conferências, organizada pelo escritor Edson Nery da Fonseca, amigo próximo e um dos maiores especialistas da obra freyriana, prensada pela editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco. Também nesta segunda, será inaugurada, no Museu da Língua Portuguesa (Estação da Luz), em São Paulo, a exposição Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil, com curadoria de Júlia Peregrino. (...)
Biografia - Primeiro de três volumes, a obra de Larreta e Giucci dá o primeiro passo no sentido de biografar com fidelidade e detalhismo o legado de Gilberto Freyre, carente ainda de um relato biográfico definitivo que desse conta de sua complexidade. Até então, a tentativa se limitava aos trabalhos de Diogo de Mello Meneses e Vamireh Chacon, que tinham um caráter mais laudatório que acadêmico. O mais próximo a que se havia chegado foi a premiada obra Gilberto Freyre: Um vitoriano nos trópicos, da cientista social Maria Lúcia Palhares-Burke. Com o lançamento dos autores uruguaios, a lacuna é preenchida com uma biografia intelectual em que não apenas se arrolam fatos e datas; confrontam-se opiniões, estabelecem conexões com o contexto cultural e histórico da época e, sobretudo, mostram Freyre em suas contradições. Para a pesquisa, os autores coletaram dados nas universidades de Stanford e Columbia e nos arquivos do Diario de Pernambuco, do qual Gilberto Freyre foi correspondente nos EUA.
Por esse olhar clínico, o livro não poderia deixar de assumirum viés polêmico. Neste primeiro apanhado, que delimita o processo de formação intelectual do jovem Gilberto Freyre, de 1900 a 1936 (até o lançamento de Sobrados e Mocambos), testemunhamos um indivíduo alegre e afetuoso, mas também movido por crises e angústias. O livro também não deixa de citar experiências homoeróticas, bem como as controvérsias em torno de Casa-grande e senzala, criticado por muito tempo como um discurso da elite escravocrata para camuflar a discriminação racial. "Isso foi superado. Hoje está sendo redescoberto por trazer uma visão otimista da sociedade brasileira e mostrar a condição social do negro como escravo, um pioineirismo para a época", delineia a antropóloga Fátima Quintas.
Serviço
Gilberto Freyre: Uma biografia cultural, de Enrique Larreta e Guillermo Giucci.
Editora: Civilização Brasileira
Preço médio: R$ 80
http://www.pernambuco.com/diario/2007/11/25/viver1_0.asp