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Postado por Ivan Maurício em 28/10/2007 13:43

GILVAN LEMOS (1)
O autor, que lança a novela Na Rua Padre Silva, diz que narra nos seus contos o que vê e conhece

Schneider Carpeggiani
carpeggiani@gmail.com

Em julho do próximo ano, Gilvan Lemos completa 80 anos. Efemérides, no entanto, não o atraem. Pensar em oito décadas de vida só o surpreende. “Nunca pensei em viver tanto tempo. Meu pai morreu com 68, minha mãe, 60. Não acho vantagem nenhuma em viver até os 80. Que é a velhice? A pior desgraça que Deus inventou, acho que nem foi Ele, sim Satanaz”, afirmou o escritor num ano em que tantas personalidades são cercadas pelas contingências das datas redondas.

O Gilvan Lemos surpreso com sua longevidade lança amanhã, às 19h, sua nova coleção de novelas, Na Rua Padre Silva, no estande da Nossa Livraria da 6ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Mais uma vez, o livro tem como foco o Recife de desvalidos, de pessoas com biografias e destino à deriva, um universo que o autor diz conhecer bem. “Eu costumo dizer que o romancista deve escrever sobre o que conhece. E mais: eu não escrevo romances, eu os vivo. Assim, morando há mais de 50 anos no Recife, esta cidade teria de ‘aparecer’ nos meus escritos.”

O livro não só traz histórias de perdas verticais, de uma falta de ilusão assombrosa. As histórias relatadas por Gilvan são tratadas de forma seca, direta. Não há metáforas explícitas, não há salvação onde se agarrar. “Ele e os filhos, cada um com a camisa do time, boné do time, garganta afiada pra exaltar pelo qual torciam. Qual era, afinal? Nem lembrava. Não achava mais graça nessas coisas, desinteressado de tudo. Só podia ser doença, tirava tal conclusão pela quantidade de comida que comia no almoço”, escreveu na novela de abertura O mar do velho Ageu.

Gilvan, no entanto, nega que sua obra esteja abarcando um caráter engajado desde Vingança de desvalidos (livro que, no início desta década, marcou o começo da relação entre Gilvan Lemos e a Nossa Livraria). “Repito que escrevo sobre o que vejo e conheço. O que está nos contos é justamente a desgraceira que impera em nossa cidade, no nosso País. Quando escrevo busco o mesmo de quando iniciei, aos 15 anos de idade: distração, vivência, alegrias, tristezas”, destaca.

Apesar de negar o tom engajado da sua obra, na própria orelha de Na Rua Padre Silva o poeta Domingos Alexandre aponta que o livro é uma espécie de Vidas secas urbano, referindo-se ao romance-denúncia de Graciliano Ramos. Gilvan discorda. “Não, não concordo. Talvez na feitura porque, inicialmente, Vidas secas era uma coletânea de contos com o título de Viventes das Alagoas. Depois foi que Graciliano Ramos os reuniu com o novo título. Eu também comecei meu livro com contos, na mesma rua. Como os contos foram se relacionando, e a conselho do editor, eu os reuni e batizei-os como ‘novela’. Sua principal personagem é a Rua Padre Silva.”