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Postado por Ivan Maurício em 30/10/2007 18:29

JACI BEZERRA (1)
Jaci Bezerra publica Linha d’água, livro que reafirma a postura do autor em lidar com poemas que começam e não têm ponto final

SCHNEIDER CARPEGGIANI
Em meados da década de 90, Jaci Bezerra começou a escrever o que seria o livro Comarca da memória. Exigente, passou quatro anos debruçado no trabalho. Escrevia e refazia cada palavra sem pudor – pudor que lhe falta mesmo diante da obra pronta. Para ele não há ponto final... Encerrado o exercício, sua primeira atitude foi enviar exemplares para amigos e “pessoas que eu queria que lessem”, explica. Com os títulos que sobraram, no lugar de procurar um espaço nas livrarias, preferiu ir direto à “base” da cadeia alimentar literária: levou os livros para um sebo.

Seu prazer final com Comarca da memória não foi vê-lo distribuído em grandes livrarias ou estampado em jornais. “Quando escrevo, muitas vezes faço ‘grafites’ dos meus amigos, de familiares. Quero que essas pessoas vejam o que escrevi”, aponta o poeta.

A atitude acima descrita diz muito sobre a maneira como Jaci lida hoje com a divulgação da sua poesia. Expoente da Geração 65 e ex-editor das lendárias Edições Pirata (coletivo que na década de 80 editou a poesia underground recifense), o poeta foge do circuitão literário e evita noites de autógrafos. “Já fiz muito isso, cansei”, afirma Jaci, que acaba de lançar Linha d’água. “Eu gosto de conversar com as pessoas, de conhecer o trabalho dos novos poetas, mas não me interessa o circuito literário”.

Linha d’água reúne o inédito Termo de posse e traz novas versões de obras antigas de Jaci. Uma reunião, mas nunca uma “antologia”, como ele mesmo gosta de deixar claro. Estão lá Comarca da memória, Livro das incandescências, Livro de Olinda, Inventário do fundo do poço, A onda construída e Lavradouro. Os textos antigos voltam, muitas vezes, refeitos pelo autor. “Um poema nunca acaba”, entrega. Ou mesmo não “dencansa”, como já escreveu Paulo Mendes Campos. “Tem textos que se fazem na hora, é como se o poema escrevesse a si mesmo. Outros sempre tenho de mexer, refazer”.

O novo livro traz ainda uma breve fortuna crítica. Na verdade, a reunião de cartas e opiniões de amigos e críticos que Jaci colheu ao longo da carreira – as tais pessoas que o poeta queria que lessem sua obra. Entre os artigos, um texto publicado em 1966, no Diario de Pernambuco, em que César Leal (o criador do termo Geração 65) aponta sua surpresa diante de dois, então, novos autores: Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo.

“Poderia dizer que Jaci é o poeta ‘possesso’, o criador de imagens, o poeta tipicamente moderno pela tendência que tem em criar uma mitologia e simbologia próprias. Para ele, a linguagem funciona como funcionam as cores para um pintor na pintura ‘não objetiva’. Eis porque nele as palavras conseguem criar formas sensíveis, ainda que não reais, oferecendo ao leitor uma série contínua de imagens de uma visibilidade quase pura”, escreveu César Leal.

Se Jaci procurou encontrar novas formas de “redizer” suas palavras já publicadas, no propriamente novo Termo de posse, o poeta se mostra em excelente forma – o que talvez explique sua obsessiva busca pela perfeição. “A poesia abarca tudo”, diz o poeta no texto de abertura, Lapiseira com paisagem - “Tua vida cabe no teu lápis cartucho/ de lembranças que se negam a morrer (...)/ Teu lápis é a tua casa, os teus medos,/ o teu silêncio e os teus remorsos/ o rumor dos vivos e dos mortos/ que diariamente invade teus cadernos.”

(...) Há ainda versos em que discute e se divide entre Alagoas (estado onde nasceu) e Pernambuco (estado que escolheu) – “Alagoano quis Deus ou o destino/ que fosse assim, um recifense torto:/ e nessa condição, desde menino,/ um homem que a um só tempo é mar e porto”.