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Postado por Ivan Maurício em 04/11/2007 12:10

J. BORGES (4)
Você tem um tema predileto para os cordéis?
Recentemente lancei A Vida Secreta da Mulher Feia, inspirado numa professora que veio aqui... Ultimamente estou escrevendo mais gracejos, sacanagem mesmo. Escrevo mais sobre isso, porque hoje em dia o povo anda muito ocupado. Antes todo mundo tinha tempo para ler aqueles romances grandes. Hoje não. É tudo na correria. Aí faço um cordelzinho pequeno, de oito, 10 páginas, cheio de gracejos, que o cabra, enquanto faz um lazer, dá uma risada também. Quem quiser ler os mais antigos, sentimentais, também pode. Mas os meus são só sacanagem.

Falando nisso, o cordel também foi muito utilizado na política, não?
Ainda é. Agora é que está mais forte. A força do voto está na periferia, no povo menos informado. E esse pessoal de sítio, fazenda, não entende muito esses folhetos feitos com as palavras mais científicas. Eles entendem a língua popular, que está no cordel. Escrevo muitos folhetos desses em ano de campanha. Até gravura tenho feito para campanha política. E, quando o candidato me pediu pela primeira vez, achei esquisito, porque gravura não dá expressão a ninguém. Acabou se elegendo.

No caso da gravura, há também uma preferência por assunto?
Nas gravuras, eu capto os temas aqui da região. A alegria e a tristeza do povo do Nordeste, o folclore, as lendas. E também o contraste da coisa da religião com o diabo. Uso muito a figura do capeta, é um grande personagem meu. A mulher e o diabo, porque a mulher todo mundo admira, e o diabo um bocado de gente também gosta. E quando não gosta, tem medo. De qualquer maneira, ele chama atenção.

A crítica que você faz da religião nunca te criou problemas?
Nunca. Sempre toco no assunto e misturo o diabo com os santos, a prostituta… Outro dia mesmo fiz uma exposição e a leitura de um dos meus cordéis mais famosos, que é A Chegada da Prostituta No Céu na Universidade Católica de Brasília. Foi uma zoada danada, todo mundo riu. Esse texto é forte, porque a prostituta vai para o céu, chega lá e namora os santos todos. Aí um amigo, Jeová, me chamou de lado e disse que ia dar problema, porque a faculdade era sustentada pelos padres. Um pouco depois, enquanto ele foi na lanchonete, chegou o diretor e convidou nós dois para almoçar num dos melhores restaurantes de Brasília. Quando Jeová voltou, eu fui logo dizendo: “Olha, já chegou uma bronca aí pra gente…” Ele aperreou-se e perguntou logo qual era. No que eu disse: “O diretor convidou a gente pra almoçar no restaurante, e é ele quem paga!”. Escrevo de uma maneira que, se um padre pegar um folheto meu, até ele dá risada.



Você foi responsável por disseminar o cordel e a xilogravura, também entre os artistas populares. Como você vê o momento atual dessa produção?
Sempre acreditei que a coisa só teria força se tivesse muita gente tocando na mesma tecla. Por isso ensinei muitas pessoas, e continuo dando cursos. Fico muito satisfeito, porque parece que sou o carro-chefe da xilogravura em Pernambuco. Quando comecei não tinha ninguém. Eu era tão ingênuo que tinha até medo de vender meu trabalho. Quando o povo comprava, pensava que eles levavam para Brasília, e que vinha alguma represália contra mim. Era o tempo da ditadura. Eu não tinha quem me explicasse, não sabia o nome, nem o que estava fazendo. Só vivia me perguntando: “Pra que eles querem essas figuras feias que faço?” Hoje mudou, e para melhor.

SAIBA MAIS

J. Borges (Coleção Biblioteca de Cordel, Hedra, 2007)
Memórias e Contos de J. Borges, de J. Borges (aquisição diretamente com o autor, (81) 3728-0364)

Na internet:

www.lost.art.br/j_borges.htm

http://www.almanaquebrasil.com.br/papo.asp