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Postado por Ivan Maurício em 09/09/2007 21:51

JOEL SILVEIRA (1)
Joel Silveira, o repórter dos presidentes, morreu no último 15 de agosto, aos 88 anos. “A víbora” , como era conhecido, viveu a história de perto, denunciava os medíocres e marcou o jornalismo. Releia entrevista concedida para a Caros Amigos em abril de 2000. Vale a a pena ler de novo!

por Geneton Moraes Neto.

Crianças: silêncio, por favor. Porque vai falar agora o repórter que conviveu com uma galeria completa de presidentes da República. Nome da fera: Joel Silveira. Nosso personagem é o exemplo acabado do que o lugar-comum batizaria de enciclopédia ambulante. Ou testemunha ocular da história, no melhor estilo do velho Repórter Esso. Fala porque viu. (Faça-se o teste. Cite-se um nome. Getúlio Vargas? Joel conheceu pessoalmente, é claro. Ficou impressionado com a maciez da mão do ditador. “Uma mão delicada, quase feminina, de unhas bem tratadas.” Jânio? Jango? JK? Todos eles cruzaram o caminho deste sergipano que pousou no Rio em 1937. De JK, chegou a roubar uma namorada.) Lá vem a “víbora” – era assim que o poderoso chefão dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, chamava Joel Silveira, um dos últimos monumentos de uma época romântica do jornalismo brasileiro. (A propósito: quem nomeou Joel como correspondente na Europa em guerra foi Chateaubriand, em pessoa.) Quando gente como Joel povoava as redações, os jornais publicavam reportagens com grife autoral. Hoje, com raríssimas exceções, não há nem reportagem nem grife autoral nos nossos jornalões. Há pelo menos vinte anos Joel não é chamado para escrever nos jornais da grande imprensa, o que diz um bocado sobre a qualidade do texto hoje. Inflada por inumeráveis barris de uísque consumidos nas últimas décadas, a barriga da víbora só falta abrir um rombo na camisa apertada. Dizem as más línguas que, perto de Joel Silveira, um Galaxie – aquele carrão que bebia com a voracidade de um boêmio – seria catalogado como abstêmio. É mentira. A víbora parou de beber desde que se constatou vítima de um mal irremediável: a ausência de amigos com quem pudesse dividir os prazeres do copo. Um a um, todos se foram. Estão mortos. Joel teve de escolher: ou parava de beber ou virava um consumidor solitário de uísque, hipótese que o horroriza. Cravou um “x” na primeira opção. Num arroubo teatral, já se declarou “o homem mais solitário do Brasil’’. As garrafas de scotch, supremo sacrilégio na casa de um bebedor de meio século, viraram peça de decoração desde o já remoto ano de 1992. Hoje, a bebericagem é pra lá de eventual. Aos 81 anos de idade, resolveu deixar crescer uma barba grisalha que lhe dá a aparência de um Ernest Hemingway pousado às margens do Atlântico Sul. É uma fábrica de textos: acaba de lançar A Camisa do Senador (Editora Mauad), uma coletânea de veneno destilado. Dedica-se agora, em tempo integral, à confecção do segundo volume de memórias, previamente intitulado de A Hora Suja – um inventário do Estado Novo e da experiência como correspondente na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Caçadores de revelações indiscretas sobre as maiores celebridades desta República dificilmente sairão de mãos abanando do reduto da víbora – o apartamento 602 de um prédio da rua Francisco Sá, Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil. Não há tema candente ou personalidade conhecida capaz de despertar, em Joel, o sentimento da indiferença. Sobre tudo e sobre todos, ele terá ou um depoimento pessoal ou, na pior das hipóteses, uma frase ferina a ofertar aos ouvintes. H.L. Mencken, o papa do jornalismo iconoclasta, chegou ao extremo de escrever artigos atacando instituições aparentemente inofensivas, como os jardins zoológicos (“Mostre-me um garoto que tenha aprendido alguma coisa valiosa ou importante observando um leão velho e sarnento roncando no fundo da jaula ou uma família de macacos disputando amendoins...”). Joel Silveira é titular absoluto de uma das cadeiras da imaginária Academia dos Discípulos de H.L. Mencken. (...)

http://carosamigos.terra.com.br