Postado
por
Ivan Maurício
em 10/09/2007 01:02
JOEAL SILVEIRA (8)
Final. Parte VIII.
Se você fosse escrever uma “Enciclopédia Joel Silveira”, o que é que diria num verbete sobre, por exemplo, Graciliano Ramos?
Uma vez, levei um conto pra ele ler. Graciliano era muito seco, nos atos. Começou a ler o meu conto. De repente, rasgou o conto, rasgou tudo, virou confete. Não dava para emendar. Eu não tinha cópia. Depois de rasgar, ele botou na cesta. Não disse nada. Preferiu me convidar para ir ao Café Mourisco, para beber uma cachacinha e um café.
Você não perguntou nada a ele?
Não perguntei nada, ele já tinha dito, com um gesto. Quer resposta mais explícita do que aquela, rasgar o conto? Anos depois, eu disse: “Ô, Graça, mas aquele meu conto era muito ruim mesmo?” E ele: “Horroroso!”
E o verbete sobre Monteiro Lobato seria como?
Fiz com Monteiro Lobato uma entrevista fatídica, para Diretrizes. Fui ao chalezinho de Monteiro Lobato, no Pacaembu. Ficamos a manhã inteira conversando. Ele, pequenino, de pijama, falava violentamente contra a ditadura de Getúlio Vargas. Monteiro Lobato tinha horror ao Getúlio. Lá no meio da entrevista, ele soltou esta frase: “O governo deve sair do povo, como a fumaça da fogueira”. Isso em pleno Estado Novo! Samuel Wainer transformou essa frase de Monteiro Lobato em manchete. A revista foi imediatamente fechada pela polícia. Samuel se mandou para uma embaixada, acho que do Chile. Eu fui para Sergipe.
E Oswald de Andrade?
Para mim, Oswald de Andrade era um moleque. Eu tinha a maior antipatia por ele. Era um sujeito ruidoso, cheio de frases feitas, um vagabundo, nunca fez nada na vida. Torrou a fortuna da família toda. Gastava dinheiro na Europa, por conta da burguesia, num gesto antipático e hipócrita.
Sobre Mário de Andrade, o que é que você escreveria?
Era insuportável, um veadão, vivia cercado de garotos, todo pachola. Uma vez, escreveu uma crítica sobre um livro. Disse: “Este realmente é um bom contista, não é um Joel Silveira qualquer”. Devo ser a única pessoa do Brasil que nunca recebeu uma carta do Mário de Andrade. Todo mundo recebeu. Não me empolga. A poesia de Mário de Andrade é muito ruim, os contos são uma coisa tradicional, aquele negócio de folclore. Detesto folclore!
Há quanto tempo não chamam você para escrever num grande jornal brasileiro?
Há séculos, meu Deus do céu! Não há por que chamar.
Faz de conta que você é o chefe de reportagem. Se chegasse aqui um jovem repórter cheio de entusiasmo e pedisse a você uma grande pauta para fazer hoje no Brasil, que assuntos você indicaria?
Que tal o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva durante o governo militar? Já se cavou uma cova. Vamos cavar outras, então! E a morte da figurinista Zuzu Angel num acidente que não entra na cabeça de ninguém? E a explosão da bomba no Riocentro? Qual foi a intenção verdadeira? Era causar um massacre? Ou dar um susto? A morte de Juscelino ficou mal contada. A mim, não convenceu. Não sou um juscelinista. Sou um leitor de jornal. E o atentado à OAB? Quem mandou? E a morte de Lamarca? E a de Marighela? Um sujeito astuto e conspirador, como ele era, ia sair idiotamente daquele jeito? E aquele operário que morreu no DOI-CODI em São Paulo? E a morte de Herzog, que não tinha motivo nenhum para se suicidar? Isso tudo daria uma série fantástica.
Você conseguiria descrever Joel Silveira em uma só palavra?
Teimoso. Não pedi para vir ao mundo. Agora, aos oitenta anos, não vou pedir para sair.
Geneton Moraes Neto é jornalista.
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