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Postado por Ivan Maurício em 23/11/2007 22:10

JOMARD MUNIZ DE BRITTO (1)
Lições de inconformismo do filósofo pop, poeta, performer e agitador cultural Jomard Muniz de Britto


"Sobrevivemos pelo desencantamento do mundo e reencantamento das linguagens." Assim diz um poeta franco-atirador, filósofo pop, cineasta super-oitista, agitado agitador cultural, artista de colagens e bricolagens, performer almost full time. Assim, múltiplo e plural, pode se dizer de Jomard Muniz de Britto (Recife, 1937).
Irônico paladino das vanguardas, "o famigerado JMB ou o ETC do amor cortês" (como se auto-intitula) é autor de dez livros, algumas peças de teatro e mais de 30 filmes e vídeos. Formado em filosofia pela Universidade do Recife (atual Federal de Pernambuco), integrou a equipe de Paulo Freire no lançamento de seu programa de alfabetização para adultos.
Seu livro "Contradições do homem brasileiro" chegou a ser retirado intempestivamente das prateleiras por um batalhão militar em 1964. Com o AI-5, foi aposentado das universidades de Pernambuco e da Paraíba (por esta, foi ainda acusado de "manipular mentes juvenis"). Certa vez, uma palestra sobre o amor condenou-o a um inquérito policial.
Confinado na mesma cela de Gregório Bezerra, Jomard tentou ensinar-lhe francês. Durante seu afastamento, lecionou na Escola Superior de Relações Públicas do Recife e coordenou treinamentos sobre comunicação e criatividade em corporações públicas e privadas. Com a anistia, em 1984 recuperou seu posto universitário.
Representante da tropicália no Nordeste, redigiu manifestos do movimento: "Porque somos e não somos tropicalistas" (com Aristides Guimarães e Celso Marconi; "Jornal do Commercio", abril de 1968) e "Inventário do nosso feudalismo cultural", que teve entre seus signatários (além daquele primeiro trio e outros nomes), Caetano Veloso e Gilberto Gil.
O autor é cultor da incontinente arte da conversa, fala expandida. Alguns de seus livros fronteiriços entre poesia e prosa, repletos de investidas anarcoplásticas, são: "Inventário de um feudalismo cultural" (1979), "Terceira aquarela do Brasil" (1982), "Bordel brasilírico bordel" (1992), "Arrecife do desejo" (1994) e "Atentados poéticos" (2002).
Nos tais "atentados poéticos" (originais poemas em glosa), distribuídos por e-mail ou em panfletagem mão-a-mão, Jomard alia erudição e alusão a irreverência e provocação, criticando o panorama provinciano das mentalidades acomodadas em preconceitos e atrasos. A dura busca da equação entre invenção e intervenção.
Para Rubens Machado Jr., pesquisador e professor de cinema na USP, que recuperou as experiências do poeta em super-8 (mostra "Marginália 70"), "Jomard sintetiza em sua própria figura este trajeto moderno e um tanto impossível, arlequinal, que nos leva de Paulo Freire a Zé Simão, passando por Sartre, Glauber e o tropicalismo".
Na entrevista a seguir, feita por escrito, Jomard fala das relações com Glauber Rocha, que prefaciou um livro seu, e com quem trocou saborosas cartas. Numa delas, que termina com "O Brazyl vai indo. Acho quê?", Glauber sugere a Jomard fazer "um filme sobre Lampião, você mesmo fazendo o papel. Lampião Super 8". E completa: "Se você quiser eu canto uma música only for you, em ritmo nordestino" (leia uma carta de Glauber a Jomard no final desta entrevista).
Fala também de Ariano Suassuna, seu ex-professor de estética quando jovem. Conta-se que em 1968, no intervalo de uma peça, Suassuna esmurrou o jornalista Celso Marconi, alegando: "Era para Jomard, mas já que ele não está aqui, leva você mesmo".
Jomard esbanja exuberância intelectual e entusiasmo. Como um dândi elegante e galante a flanar sobre a sordidez e o imprevisto, circula pelas ruas do Recife onde é "popular" entre artistas, estudantes e figuras noturnas do lúmpen. Mito carismático, demasiado humano, afeito a contrafacções e contradicções, e aberto à disposição gozosa pelas coisas da vida.

(...)

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2604,1.shl