Postado
por
Ivan Maurício
em 31/03/2008 20:35
LEANDRO GOMES DE BARROS (4)
HORA DE CONHECER LEANDRO
Aniversário de morte do pai do cordel motiva pesquisa para uma biografia inédita
Lorenzo Aldé
Um dos patriarcas da literatura nacional terá seu aniversário de falecimento amplamente celebrado em 2008. Crítico mordaz dos valores de seu tempo, sensível observador da vida pública e da política tupiniquim, dono de estilo irônico e inesgotável imaginação, ele influenciou gerações de escritores que o sucederam no século XX. Ora, de quem poderia se tratar?
Sim, este é o ano do centenário da morte de Machado de Assis. Mas, sem tirar nem pôr, as definições acima merecem ser destinadas a outro patrono de nossas letras, cuja morte completa em março 90 anos: Leandro Gomes de Barros.
Ele foi o Machado de Assis da literatura popular. Leva seu nome a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Têm a assinatura do poeta paraibano os primeiros folhetos conhecidos do gênero, ainda no século XIX. Entre 1893 e 1918, publicou mais de mil histórias, distribuídas em cerca de 500 folhetos e multiplicadas por espantosas 10 mil edições.
Seus versos rimados passeavam pelas tradições populares e tipos nordestinos, em tramas recheadas de humor satírico. Tinha especial aversão pelo clero, denunciava abusos de coronéis, criticava as eleições de cabresto, os impostos, o autoritarismo dos agentes da lei. Abordou episódios históricos, como o advento da República (1889), a Guerra de Canudos (1893-1897), a passagem do cometa Halley (1910), Padre Cícero e a Revolta de Juazeiro (1914).
Quem já assistiu ao “Auto da Compadecida”, certamente se lembra da história do testamento do cachorro, do golpe da bolsa de sangue para simular um homicídio, do animal que defecava dinheiro e do instrumento capaz de ressuscitar os mortos. Pois foram todas invenções de Leandro Gomes de Barros, assumidamente adaptadas por Suassuna em sua obra-prima.
Parte dos versos do Pai do Cordel pode ser conhecida em uma seção especial do site da Casa de Rui Barbosa (http://www.opus4.com.br/cordel/leandro_colecao.html). No entanto, muita coisa se perdeu, e não existe biografia alguma do poeta. Por isso, vasculhar por obras desconhecidas e desvendar detalhes de vida do mestre virou uma obsessão para Arievaldo Viana, coordenador do projeto Acorda Cordel nas Escolas e membro da ABLC. Quanto mais descobre sobre o personagem, mais fascinado fica. Por meio de uma bisneta de Leandro, conheceu a versão de que na verdade ele descendia da família Nóbrega — adotou o nome Barros depois de abandonar o tio, padre Vicente, que o criara em meio a maus-tratos e desviara dinheiro da herança da família. “Era um padre cangaceiro, que cortava as orelhas dos inimigos e as colocava numa cabaça. Quando Leandro foi tomar satisfação sobre o dinheiro, ele o ameaçou: ‘Ainda tem espaço na cabaça”, conta Arievaldo.*
O biógrafo ressalta o senso de markentig do poeta, que criou uma rede de revendedores em vários estados, chegando até ao Acre. Foi dos poucos de sua geração a viver exclusivamente da venda dos folhetos, e pioneiro até como vítima da pirataria, contra a qual se insurgia publicamente. Um dos desafios de Arievaldo é encontrar folhetos em que João Martins de Ataíde, editor de sua obra após a morte, omitia a autoria de Leandro e assumia os cordéis como seus.
Morreu como um de seus arquetípicos personagens. Por defender, em um cordel, a revolta de um empregado que assassinara um violento senhor de engenho, acabou preso em 1918, aos 53 anos. Tamanha humilhação, sua alma não suportaria. É o que diz a lenda. Que venha a biografia!
Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, edição de fevereiro de 2008, já nas bancas!
http://fotolog.terra.com.br/acorda_cordel:119