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LIÊDO MARANHÃO (1)

Dentista, escritor, pesquisador da cultura popular, cineasta, escultor, memorialista. O número de atividades que esse homem de 82 anos exerce e exerceu só não é maior que o acervo que possui. São milhares de livros: de culinária, religiosos, folhetos de cordel, almanaques, gibis, medicina popular. Cartazes de cinema, fotos, santinhos de eucaristia, esculturas e até uma prensa de cordel antiga, além das estimadas onze mil páginas dos diários que escreveu biografando personagens populares. Liêdo Maranhão conversou com o repórter Felipe Mendes na sua casa em Bairro Novo, Olinda. O local está, graças a um patrocínio da Petrobras, se transformando na Casa da Memória Popular, o acervo sendo digitalizado e organizado, e a casa climatizada. A abertura ao público está prevista para o ano que vem. Quem não quiser esperar tanto pode conferir a exposição Liêdo Maranhão: O Escriba dos Excluídos no Espaço da Cultura Popular do Recife, localizado no recém-reformado Mercado de São José, mercado que marcou a história do nosso entrevistado.

Aenda Cultural - Como surgiu o seu interesse pela cultura popular?
Liêdo Maranhão - Surgiu da minha vivência no Bairro de São José, onde vivi por dezessete anos. São José é um bairro popular. As festas populares, a praça do Mercado de São José, a chegada do cangaceiro Antônio Silvino eu lembro que me marcou muito, o carnaval. Eu sou um dos fundadores da Escola de Samba Estudantes de São José, o carnaval na minha época era uma beleza, não é como hoje, que tudo é igual. Antigamente se alugava carro para brincar carnaval, isso pelos anos quarenta, era uma batalha de confete, de serpentina. A rua ficava congestionada e quando os carros andavam as serpentinas se partiam, era belíssimo aquilo. O carnaval era mais espontâneo.

AC - E quando surgiu o hábito de coletar e colecionar todo esse material que você hoje tem reunido?
LM - Eu trabalhei na biblioteca do meu avô, a Biblioteca Metódio Maranhão, com 14 mil livros, que foi doada mais tarde para a Faculdade de Direito. Mas o principal é que eu sempre tive muita curiosidade, sempre tava ligado, como se diz hoje em dia. Então eu viajei para a Europa e passei três anos. Fui para fazer residência, mas larguei e fiquei viajando. Passei por 25 cidades da Espanha e fui para vários outros países. Aí eu voltei mais brasileiro, sabe? Da Europa eu já trouxe muita coisa: bilhetes de trem, entradas de museus, a identificação que se colava nas malas nos hotéis. Daí comecei a freqüentar a praça do Mercado de São José procurando saber sobre os folhetos – hoje chamados de literatura de cordel.

AC - A ligação com o Mercado de São José é muito importante na sua vida?
LM - Eu freqüentava o Mercado desde menino. Eu gosto da rua, do povo, vivo em casa a passeio. Uma das coisas que estão previstas nesse projeto da Casa da Memória Popular é a republicação da minha obra. Um dos livros é sobre o Mercado de São José: O Mercado, sua Praça e a Cultura Popular do Nordeste. O Mercado tinha um setor que era só de galinha, outro setor era de armarinho, onde se encontrava linha, carretel, botões... Outro setor era o de roupa usada, chamada Vuco-Vuco. O nome vem da coisa de esfregar a roupa pra lavar. Quando morria o chefe da família as pessoas vendiam a roupa. Até hoje se diz, quando a roupa está larga, que o defunto era maior. Mas hoje o Mercado está muito descaracterizado, a coisa mais autêntica que ainda permanece é a parte de peixes, de carne, mas o resto é tudo artesanato, mais pra turista.

AC - E a praça do mercado?
LM - A praça do Mercado de São José era uma coisa maravilhosa. Ali a quantidade de cantadores, de pessoas que trabalhavam com arte, acrobatas, vendedores... Tinha um vendedor de catuaba muito espirituoso chamado de Fazendeiro – o chamavam assim por que ele era grandão, parecia mesmo um fazendeiro – que, vendendo catuaba, falava: “isso aqui é praqueles homens que chegam em casa e ficam como casa de vila: fundo com fundo”(risos)

AC - Por que você começou a escrever os diários em que conta a história desse povo?
LM - Eu comecei a fazer os diários em 1971. A idéia dos diários surgiu da história do escritor Washington Irving, que morou no Palácio da Alhambra, em Granada, na Espanha. O lugar estava abandonado, só tinha vagabundo, e ele foi falar com o prefeito dizendo que era um estudioso e que queria morar lá. O prefeito avisou da falta de segurança mas disse que se quisesse ele podia ir. Ele foi e com o tempo o pessoal começou a contar as histórias do lugar. Ele então escreveu o livro Contos da Alhambra. Por causa deste livro o governo se interessou em restaurar o palácio, tem um quarto lá com uma placa que diz: “aqui viveu Washington Irving”. Quando eu cheguei na praça do Mercado de São José e comecei a ouvir aquelas histórias pensei: ”essa é minha Alhambra”.

AC - É verdade que você andou pelo Nordeste todo fazendo sua pesquisa? Quais estados você conheceu?
LM - Piauí, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia, Maranhão...Onde tinha a literatura de cordel eu seguia atrás. Eu tenho folhetos que contam a história política do país, mas o cordel hoje não é mais coisa do povo, é coisa pra intelectual, Ph. D. O folheto era considerado o jornal do matuto, na época não existia essa informação toda. Alguns se alfabetizaram por causa do cordel. Eu lembro de Manoel Caboclo, que era uma pessoa que escrevia, imprimia, editava um almanaque anual. Perguntei a ele onde tinha estudado e ele disse que tinha sido por si mesmo, perguntando a um, a outro, pegava a carta do ABC, botava debaixo do chapéu e saía perguntando. Ele se alfabetizou para poder ler cordel. Uma vez a mãe dele mandou comprar um pedaço de sabão na venda e o sabão vinha embrulhado num papel. Ele percebeu que esse papel era poesia por causa da forma. Por curiosidade, começou a ler.

AC - Suas pesquisas certamente renderam histórias maravilhosas...
LM - Mas se falava mais de mulher, era a época da ditadura militar, de repressão, então o povo ficava com um medo danado. A cultura popular é baseada em um tripé: religião, futebol e safadeza. Eu nunca vi um povo pra gostar tanto de sacanagem como o brasileiro. Com o tempo algumas das pessoas que eu entrevistava começaram a confiar, a me contar segredos. Eu lembro de um camelô – Galego Dentão – que vendia remédio para verme. Ele cozinhava macarrão, fazia aquele bolo, colocava dentro de um vidro e dizia que eram vermes que as pessoas que tomaram o remédio botaram os vermes pra fora e levaram pra ele ver. Um dia chegou um engraçado e disse que aquilo era macarrão, Galego respondeu: “come então, peste”, e o povo tudo cuspindo com nojo, mas era macarrão mesmo (risos). O cordel também tem muita história, os livrinhos falavam de tudo, até da chegada do homem à lua, da morte do Coronel Ludugero, a história do Bode Cheiroso... Era um bode que pegava o trem sozinho, ia até Jaboatão e voltava, e como fedia muito deram a ele o nome de Bode Cheiroso. Sei que botaram ele numa eleição e ele se elegeu vereador. A plataforma política dele incluía vender perfume barato (risos).

AC - Aos seus olhos, qual é a importância deste acervo que durante toda a vida você coletou?
LM - Não existe em lugar nenhum um trabalho desse igual o meu. Eu fechei meu consultório pra fazer isso. Aqui você tem tudo, é uma biblioteca popular. Se você quiser livros de rádio, cinema, gastronomia, tem tudo. Uma vez um arquiteto fez uma festa em que as pessoas tinham que ir vestidas como nos anos sessenta, foi é gente aqui me procurando para tirar modelo de roupa da época. A minha preocupação é levar isso tudo ao povo, devolver ao povo sua cultura. Eu quero fazer exposições em lugares a que o povo tenha acesso.

AC - Dá uma sensação de missão cumprida?
LM - Aí eu faço como Picasso, que teve várias fases e, quando o repórter perguntou de que fase ele gostava mais, ele respondeu: “Da próxima”.

01/11/2007

http://www.recife.pe.gov.br/fccr/agenda/index_eventos.php?Agend
aEdicaoAno=2007&AgendaEdicaoNumero=147&TiposEventosCodigo=22