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Postado
por Ivan Maurício
em 16/10/2007 13:14
LIRA NETO (1)
O jornalista cearense Lira Neto ganhou no gênero biografia o Prêmio Jabuti por seu livro - “O Inimigo do Rei - Uma biografia de José de Alencar ou a Mirabolante Aventura de um Romancista que Colecionava Desafetos, Azucrinava D. Pedro II e Acabou Inventando o Brasil”. Lira tem percorrido uma trajetória de sucesso no campo da biografia. Além de José de Alencar, o jornalista já escreveu livros sobre a vida de Rodolfo Teófilo, Castello Branco e, mais recentemente, Maysa. O Jabuti é um dos principais prêmios do mercado editorial brasileiro. Leia a seguir trechos da entrevista que o jornalista Lira Neto concedeu ao Caderno 3
Como você avalia o prêmio Jabuti?
O Jabuti, a principal premiação do mercado editorial brasileiro, é uma honraria para qualquer escritor. Estaria mentindo se não dissesse que a notícia me envaideceu e me deixou bastante feliz. Ao mesmo tempo, o prêmio representa o reconhecimento de um trabalho árduo. Passei dois anos queimando pestanas sobre documentos a respeito de José de Alencar, em regime de dedicação exclusiva, escarafunchando arquivos e acervos empoeirados de todo o país, especialmente no Rio de Janeiro. Saber que o livro foi considerado, pelo seleto e rigoroso júri da Câmara Brasileira do Livro, a melhor biografia publicada em 2006, recompensa todo esse esforço. Mas tão bom quanto o prêmio em si - ou ainda melhor - é saber que O Inimigo do Rei tem recebido ótima acolhida por parte do público.
Você considera seu livro um dos mais completos sobre o escritor cearense?
O grande desafio ao biografar José de Alencar foi o fato de, antes de ´O Inimigo do Rei´, já existirem pelo menos meia dúzia de outras biografias sobre o escritor cearense. Mas sempre digo que nenhuma vida cabe em um único livro. Procurei lançar luzes sobre aspectos pouco ou nunca explorados pelos biógrafos anteriores. Quis mostrar, principalmente, que o Alencar era um sujeito muito mais interessante, mais sarcástico, polêmico, corrosivo, do que aquela figura carrancuda que nos obrigaram a ler nos tempos de colégio. A escola, ao empurrar os clássicos goela abaixo de crianças e adolescentes, é a principal responsável por crescermos odiando mestres como Alencar, Machado, Graciliano.
E qual o Alencar que se revela em “O Inimigo do Rei”?
Um polemista por natureza. Um escritor que, ainda rapazote, desafiou os maiores figurões literários de seu tempo, em virulentos artigos de jornal. Um homem que vivia às turras com D. Pedro II e que tinha, como projeto de vida, estabelecer uma literatura nacional. Um dramaturgo que foi proibido pela polícia sob a acusação de imoralidade. Um panfletário inflamado, que escrevia como um capeta, desancando os costumes da Corte e os áulicos do palácio imperial. Um homem que lutou contra a tuberculose e, mesmo cuspindo sangue, fazia discursos do alto da tribuna da Câmara dos Deputados, desafiando Duque de Caxias e outros intocáveis do seu tempo.
Em toda biografia encontramos lacunas, o que não poderia ser diferente. Sua pesquisa deixou muita coisa de fora sobre vida e obra de José de Alencar?
Como disse há pouco, nenhuma vida cabe em um livro. Mas procurei oferecer ao leitor o maior leque possível de informações sobre o personagem, entrecruzando sua vida íntima, sua carreira de escritor, sua atuação política, sua produção teórica. É claro que, numa pesquisa de tal monta, muita coisa vai ficar de fora. Sou um jornalista e, como tal, não resisto à comparação: um repórter só sabe que tem uma grande reportagem nas mãos quando percebe que boa parte da apuração que fez não vai caber no texto que será publicado no jornal. Isso mostra que a investigação foi sólida e que não vai evaporar no ar. Com uma biografia, é a mesma coisa. Escrever é também editar, selecionar, separar a informação mais relevante. E continuo sendo, essencialmente, um repórter. Meus livros são só isso: reportagens de longo fôlego. (...)
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