MANOEL FIEL FILHO (1)
Docudrama recupera heroísmo do operário Manoel Fiel Filho.
Por Luiz Carlos Merten e Felipe Recondo, especial Agencia Estado
Domingo, por volta das 16 horas. Céu parcialmente encoberto na zona leste de
São Paulo. No cemitério da Quarta Parada, no Tatuapé, três mulheres de preto
descem por uma alameda depois de depositar rosas vermelhas num túmulo. De um
praticável, montado em outra alameda, elas são filmadas - pois se trata de uma filmagem - pelo diretor que mantém um olho no monitor e outro no
cronômetro, enquanto se ouve de fundo (e alto) Elis Regina soltar a voz nos
versos de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que virou
hino da anistia (e da campanha pela volta dos exilados políticos). Há um
clima de profunda emoção na coisa toda, e o próprio repórter do Estado viaja
em suas lembranças, voltando a uma fase sombria da vida brasileira. Mas para
as três mulheres é pior.
São a mulher, Thereza de Lourdes Fiel, e as duas filhas, Márcia e Aparecida,
de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico que, no início de 1976, foi preso na
fábrica em que trabalhava - Metal Arte -, acusado de distribuir aos colegas
o jornal A Voz Operária, um impresso clandestino do Partido Comunista
Brasileiro. Levado para o porão do DOI-Codi, em São Paulo, foi torturado e,
em poucas horas, estava morto. Ele foi o 39º morto - entre as vítimas
oficialmente reconhecidas - pelo regime militar, mas seu caso foi
classificado como suicídio. Foi o ''suicídio'' de Manoel Fiel Filho, 84 dias
após outra morte em circunstâncias idênticas, a do jornalista Vladimir
Herzog, na mesma carceragem, que levou o então presidente Ernesto Geisel a
colocar um ponto final nos porões da ditadura, para coibir o que já virara
uma anarquia militar - Geisel demitiu seu ministro do Exército, o general
Sylvio Frota, e o comandante do 2º Exército, Ednardo D''Ávilla Mello. As
duas demissões, sumárias e desonrosas, aceleraram o processo de distensão
política ''lenta e gradual'' que o presidente iria colocar em prática.
A morte de Manoel Fiel Filho faz parte da história brasileira. ''Meu marido
foi um mártir'', diz a viúva, até hoje inconformada com o tratamento de
segunda classe que este verdadeiro herói brasileiro recebe na mídia. O caso
de Vladimir Herzog repercutiu muito mais e, até hoje, a cada aniversário de
morte do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura, a família Fiel sente-se
discriminada, porque, ao falar de Herzog, ninguém se lembra de Manoel Fiel
Filho e, quando falam de seu sacrifício nos porões da ditadura, a história é
sempre pretexto para que se volte a falar de Herzog. É um pouco essa
injustiça que o jornalista e diretor Jorge Oliveira quer corrigir em seu
documentário. Alagoano como Fiel Filho, não é tanto a sua origem, mas a
indignação que movimenta Oliveira, que está colocando dinheiro do próprio
bolso na realização do filme.
É outra coisa que o revolta. ''Inscrevi o filme na Petrobrás e não ganhei
nada. Não houve interesse da comissão que avaliava os projetos em recuperar
a história de um herói brasileiro, mas ''eles'' (a comissão) colocaram
dinheiro da Petrobrás num filme como Meu Nome Não É Johnny. Depois de ver o
Johnny quase quis virar traficante. Muito instrutivo'', ele provoca.
Jornalista e marqueteiro político, sediado em Brasília, Oliveira é o
primeiro a rir de seu currículo, porque ele fez a campanha de Renan
Calheiros, por exemplo. Dado o rumo que tomou a história do político, não é
uma grande recomendação, mas do marketing político ele saltou para o cinema,
realizando documentários sobre Carlos Drummond de Andrade, entre outras
personalidades da vida cultural do País, ou então outro, encomendado por
Leonel Brizola, sobre o governo de Fernando Collor de Mello em Alagoas, que
o ex-governador do Rio pretendia usar como trunfo no segundo turno, mas aí
Luiz Inácio Lula da Silva foi para a segunda fase da eleição de 1989, houve
aquele tal debate na Globo e... Você conhece a história.
''Meu filme não é sobre Manoel Fiel Filho. Uso o caso dele, que me parece
exemplar, para falar de um quadro muito mais amplo - o envolvimento da CIA,
isto é, dos norte-americanos, na repressão política montada no Cone Sul, nos
anos 70'', explica o diretor. É, de novo, a história de Operação Condor e
ele gostou do documentário de Roberto Mader. Seu filme vai ser diferente -
um misto de documentário e realidade reconstituída, aquilo que se chama de
''docudrama''. O título veio de uma frase do brasilianista Jordan Young,
entrevistado por Oliveira em Washington. Oliveira perguntou a Young o que
diria a Manoel Fiel Filho, sobre o envolvimento do seu governo na máquina de
tortura e morte montada na América do Sul, há mais de 30 anos. A resposta
dele virou título do filme de Jorge Oliveira. Sorry, Mr. Fiel. Perdão, Mr.
Fiel.
Para a mulher e as filhas do ex-metalúrgico Fiel, não é fácil debruçar-se
sobre uma fase tão dolorosa da vida de todas. ''Somos espiritualistas
kardecistas e sabemos que só os ossos de meu pai estão aqui neste
cemitério'', diz Márcia, que tinha 16 anos, na época. Para ela, Manoel está
hoje em outra esfera da vida espiritual, mas o uso que o diretor faz de O
Bêbado e a Equilibrista, ajustando o final de seu filme - parte filmado em
Brasília, parte no Tatuapé - à duração da música, amolece qualquer coração.
''Já choramos todas as nossas lágrimas'', Aparecida acrescenta. ''Mas a
emoção ainda é muito forte.'' Aparecida tinha 19 anos e já estava casada -
grávida - na época. No cemitério da Quarta Parada, o diretor usa o
cronômetro para marcar o tempo da música, sobre as imagens de mãe e filha
que depositam as rosas no túmulo de Manoel Fiel Filho. A derradeira imagem
do filme será justamente a das rosas vermelhas, pousadas sobre a lápide.
A música tem quase 4 minutos - 3min40 - e os dois minutos iniciais foram
gravados no Pólo de Cinema de Sobradinho, próximo a Brasília. Foi lá que
Oliveira reconstituiu a cela do DOI-Codi em que o corpo de Manoel,
interpretado pelo ator Roberto de Martin, é encontrado no chão, repleto de
hematomas e enforcado com a própria meia de náilon azul. O filme é em
preto-e-branco, com alguns detalhes coloridos, como a rosa vermelha daúltima cena. No estúdio em Brasília, o macacão de Manoel também tem cor -
azul -, mas o restante da cena foi feito em preto-e-branco, o que permite ao
diretor fazer a fusão de uma tarja na cela com o preto dos vestidos das três
mulheres no cemitério. ''É um filme tenso, uma luz crua'', define o diretor.
A cena de tortura foi a mais difícil. ''Ficou um clima pesado'', diz o
diretor, que gravou - com equipamento digital - durante duas semanas.
''Fiquei mal'', acrescentou o ator De Martin.
Embora a última cena tenha sido feita no domingo passado, Oliveira ainda
colhe depoimentos essenciais para o quadro amplo que pretende traçar. Na
segunda-feiora, ele entrevistou, em São Paulo, o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso e ainda aguarda o sinal verde para entrevistar, em
Brasília, o presidente Lula. Oliveira anuncia que quer cobrar do presidente
seus recentes elogios a governos militares. ''Manoel era metalúrgico como
ele e tem gente que agora acusa o presidente de traição aos companheiros que
caíram.'' Oliveira espera poder estrear seu filme no Festival de Brasília,
em novembro. Antes disso, é provável que Perdão, Mr. Fiel ganhe mais algum
destaque na mídia por um detalhe que não é irrelevante. A injustiça em
relação a Manoel Fiel Filho é tão grande que, até quando a União se dispôs a
indenizar familiares e vítimas do regime militar, a viúva do operário
recebeu uma das menores indenizações que foram pagas pelo Estado. Thereza de
Lourdes Fiel está recorrendo da decisão. O dinheiro não vai remediar o
sofrimento de 32 anos de dona Thereza, mas é uma questão de Justiça e ela
vai brigar pelo que lhe é de direito. O mais incrível foi o que o diretor
descobriu ao investigar o assunto. Manoel Fiel Filho foi preso por engano. A
polícia política procurava um agente cujo codinome era Fiori. Na confusão
dos nomes, Manoel foi preso - e morto. Mas seu sacrifício não foi em vão. A
distensão de Geisel deve muito à dor da família Fiel.
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