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Postado por Ivan Maurício em 03/03/2008 22:21

MÁRIO SOUTO MAIOR (1)
Mário Souto Maior no Baile dos Artistas,
Recife, fevereiro de 2001. Foto: Jan Souto Maior.

Poeta, prefeito, promotor público, agente do Censo, vendedor de cestas de Natal e apólices de Seguros, hoje folclorista de renome internacional, Mário Souto Maior, por sua grande dedicação às coisas do povo tem sabido, como poucos, aprisionar no papel o verdadeiro sentido dos costumes e tradições do Nordeste.
Para ele, folclore é ciência, é gente, povo, costumes, tradições e também presente. “Muito do que fazemos no cotidiano tem uma origem folclórica, como tomar chá de ervas, soltar um palavrão, pedir uma lapada, nada menos do que uma entre as mil designações populares da cachaça”.

Pesquisador Irrequieto

De extrema simplicidade no falar e no lidar com as pessoas, Souto Maior, um pesquisador incansável e irrequieto, (ele próprio se refere às “formigas” que andam em sua cabeça quando alguma idéia nova começa a surgir “transfere esta sua maneira de ser para os trabalhos que publica. Não há alarde nem palavras pomposas, mas um modo muito leve de difundir a cultura em seus mais variados aspectos)”.
Nascido em Bom Jardim, zona da Mata de Pernambuco, como ele mesmo diz “pelas mãos de sinhá Aninha, velha comadre muito conhecida e respeitada em toda a região”, o menino teve uma infância bem nordestina. Caçar passarinhos e largatixa, furtar goiabas, tomar leite ao pé da vaca, brincar de Lampião e Antônio Silvino, tudo isso foram fatos comuns dos quais se recorda com um sorriso maroto.
Já no Recife, quando estudante, fundo com alguns colegas (Guerra de Holanda, Nestor de Holanda, Pelópidas Soares, Souza Leão Neto, Isaac Schachnik e outros) o jornal Geração, passando também a colaborar em jornais locais.
“Meus Poemas Diferentes” foi uma de suas primeiras obras publicada (1938).

O Casamento

Desde os 15 anos de idade, Souto Maior, tinha uma namorada – namoro escondido, as famílias tinham inimizade política – o que não impediu o casamento ainda quando fazia o curso de Direito. Família crescendo, muitos compromissos, a literatura foi posta de lado em troca de outros meios de sobrevivência, passando a exercer as mais variadas atividades, mudando de um município para outro.
Em 1954, com seu irmão Moacir Souto Maior, publicou “Roteiro de Bom Jardim”, monografia sobre a terra natal e muitos anos depois, já no Recife, começou a escrever sobre folclore, assunto que se tornou sua paixão até hoje. Foi assim que surgiram: “A Medicina Empírica e a Cachaça”; “Como nasce um Cabra da Peste”; “Presença de Alfenim no Nordeste Brasileiro” e muitos outros.

Cachaça e Palavrão

O “Dicionário Folclórico da Cachaça”, publicado em 1973 (mil palavras designativas da bebida que está sempre presente na vida do nordestino) é quase que um complemento da comentada “Cachaça” (1070), onde o autor aborda o tema num sentido não só folclórico como anedótico.
Mas a repercussão maior, antes mesmo do seu lançamento, gira em torno do “Dicionário do Palavrão” comentado por padres, pastores protestantes, moços e velhos, alvo das mais diversas opiniões.
Com “orelhas” do juiz Eliezer Rosa e contra capa de Jorge Amado, o “Dicionário do Palavrão” não é como muita gente pensa, um trabalho feito para escandalizar. O folclorista quis apenas fazer um estudo científico do assunto, aprisionando certas palavras que hoje tem um sentido e no futuro poderão ter outro.
Segundo o autor, é uma pesquisa dedicada a um grupo de estudiosos, um dicionário como outro qualquer, pautado pela honestidade e constante revisão, fonte de consulta para educadores e educandos “pois muita gente diz palavrão sem saber o seu significado”.

Fonte: Gente Nossa, por Anamelia Dantas Maciel, Livraria São José, Rio de Janeiro, 1975