Postado
por
Ivan Maurício
em 12/11/2007 22:10
MENDEZ (1)
Mário Mendez: Um traço calado!
Por: FERNANDO MORETTI (convidado - Fabricarica)
Caricaturistas e chargistas estão ligados ao traço humorístico como irmãos siameses. Mário Mendez é mais um caso. Merecidamente considerado como um dos grandes mestres da charge brasileira, Mendez nasceu em Baturité, Ceará, a zero hora do dia 25 de dezembro de 1907. Chegou ao mundo causando maior confusão, pois a única parteira da cidade assistia à Missa do Galo. O pai, apavorado, entrou às pressas na igreja e arrastou-a para casa. O dia festivo quase carimbou-lhe o nome de Natalino. Mas o pai - José Mendes de Brito Arraes - voltou atrás. Seja como for, mudança de nome deve ter marcado o menino, pois mais tarde alteraria o "s" do sobrenome por "z".
Durante a infância interessou-se pelo desenho e passava horas copiando caricaturas de J.Carlos, Kalixto e Storne. Cresceu com a arte nas veias e punha isso em prática vendendo bonecos e cartões pintados por ele mesmo. Era simples: montava uma barraca em frente a igreja da cidade onde havia se mudado (Carutapera).
Certa vez, morando em Iguatu, precisando de grana, pegou um serviço para pintar o nome de uma mercearia na parede. Preparou a tinta com anil e goma arábica. Ele conta: "Naquela região já não chovia há muito, mas dei azar; choveu durante a noite, levantei de madrugada, ainda escuro e fui olhar os letreiros. Que calamidade! A frente da mercearia estava em petição de miséria, já não se lia o letreiro. A frente da casa estava toda borrada de azul. Não esperei mais nada. Fui a casa de outra tia onde estava hospedado, enfiei algumas roupas numa valise e corri para a estação; comprei uma passagem e peguei o primeiro trem para Fortaleza".
Foi em Fortaleza que ele teve o primeiro contato com pintura. Mostrou alguns desenhos ao dono do atelier - Manoel Queirós - e foi pego como ajudante, sem ganhar nada. Assim seguiu até que apareceu um tenente da marinha querendo um cartaz para convocar voluntários. Mendez, que sonhava em viajar, ofereceu-se. Disse que tinha 18 anos (quando tinha 17) e com essa idade desembarcou no Rio de Janeiro. Serviu na banda música do regimento. Certa vez, fez a caricatura do regente da banda e mostrou-a ao tenente. Logo o desenho saiu na Revista Musical. Era o início de sua carreira de caricaturista. Três anos depois foi convidado para fazer ilustrações de carnaval para o jornal "A Manhã". Foi um sucesso, e mendez acabou efetivado. Também colaborava com o "A Batalha", "A Esquerda", "Vanguarda" e o "Radical". Os caricaturistas da época eram Kalixto, Romano, Guevara, Raul Pederneiras, Justinus e Figueroa (que muito influenciou Mendez).
Envolvendo-se com artistas, acabou conhecendo Luís Sá, conterrâneo que fazia histórias em quadrinhos da série "Reco-reco Bolão e Azeitona" para o "Tico-Tico" e o "Malho". Foi incentivado por Raul Pederneiras que fazia "Cenas da vida carioca" para a "Revista da Semana" e publicava sátiras no "Jornal do Brasil".
Artistas conhecendo artistas dão sempre uma história boa. Certo dia quando almoçava numa pensão, viu um cara numa mesa e achou-o caricaturável, tirou um papel do bolso e desenhou-o. A dona da pensão viu e disse a Mendez que aquele cara era J. Carlos. Mendez quase teve um treco. Seu ídolo desde a infância, estava ali perto. A dona da pensão não perdeu tempo e apresentou Mendez a J.Carlos. Mendez tremia. Só aquietou quando recebeu elogios do mestre sobre seu trabalho.
Caricaturistas são debochados e ousados. Quando Mendez casou-se, em 1933, a notícia foi publicada no jornal; porém, no lugar da tradicional foto, havia uma caricatura dos noivos.
Em 1935 Mendez organizou uma exposição de desenhos feitos durante uma viagem à Bahia, Pernambuco e Ceará. No mesmo ano publicou o livro "Tipos e Costumes do Negro no Brasil". Um ano depois seus desenhos saíram na revista "Cruzeiro", que despertou o interesse de Belmonte. (...)
http://fabricarica.2it.com.br/?sec_cod=5&news_cod=2