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Postado por Ivan Maurício em 03/10/2007 19:21

MESTRE AZULÃO (1)
José João dos Santos, o Azulão, é um dos grandes - senão o bambambã maior - dos cordelistas em atividade. Autor de mais de 300 folhetos, cantador de viola e mestre de reisado, o artista paraibano, radicado no Rio de Janeiro há 56 anos, é um dos fundadores da famosa Feira de São Cristóvão, virou tese de doutorado, e foi notícia até no New York Times. Azulão ganhou homenagem no II Festival Internacional de Violeiros e Trovadores, em Quixadá.

Eleuda de Carvalho
da Redação

MESTRE AZULÃO é dos principais nomes da poesia cordelista em atividade no Brasil / FOTO: EDIMAR SOARES

O Klévisson Viana, artista muito antenado, foi quem apresentou. Este é o mestre Azulão, que cantou repente à viola, escreveu mais de 300 folhetos, sabe de cor romances de cordel que mais ninguém conhece. Foi no dia 8 de janeiro de 1932, ano sem chuva, lá em Cabaceiras, para os lados de Campina Grande, Paraíba, que veio ao mundo o menino mais velho de seu João Joaquim dos Santos e dona Severina Ana dos Santos, que todos conheciam por Cecília. O umbigo nem sarou direito e uma semana depois eles estavam de volta a Sapé, a terra de seu João Joaquim, onde a família prosperou: nasceram mais 17. "Eu sou filho de moça, sabe lá o que é isso?", brinca Azulão, recordando a infância. Pequenino como o Patativa, o poeta exibe natural elegância no traje de calça e camisa de pano passado, mais a graça do chapéu de massa e uns óculos fundo de garrafa. Por trás das lentes, o brilho arteiro dos olhinhos gaiatos.

José João dos Santos aumentou um ano a idade e, com 17 (18, nos documentos), largou a vidinha na roça, pegou um ita no Norte e danou-se pra o Rio de Janeiro. O trabalho, de paraíba, sim-senhor: servente de pedreiro pra ganhar o pão. Mas trouxe no matulão outros saberes, versos aprendidos no terreiro de casa, em noites de cantoria, e uma memória de invejar. Entre os romances que aprendeu menino, e recitava para os colegas pendurados nos andaimes, enquanto carregava na cacunda uma lata de massa ou nem sei quantos azulejos, vieram também os versos próprios, de rimas exatas. Histórias de amor, de fé, de aventura, mas também os fatos do momento, transcriados em sextilhas e martelos - arte e mister do poeta popular.

A conversa foi no alto da Serra do Estêvão, em Quixadá, meados de dezembro, durante o II Festival Internacional de Trovadores e Repentistas. Azulão ganhou merecida homenagem e aproveitou pra fazer o que mais gosta: recitar poemas e vender seus afamados folhetos, do mesmo jeitinho que fez, décadas a fio, na famosa Feira de São Cristóvão, que ele ajudou a criar. Uma prosa recheada das gaitadas do presepeiro cordelista, secundadas por frouxos de riso do poeta, chargista e editor Klévisson Viana, mais a Dulce, mulher dele, a pesquisadora francesa Sylvie Debs e a equipe de O POVO (Edimar Soares, Valdir Gomes e eu). Peço ao leitor pra imaginar a cena, o Azulão alçando vôo no espaço, em sua performance de pássaro, finalizada por um reisado feitinho ali mesmo na hora, canto, trupé e trejeitos do mestre que fez lá em Japeri, na Baixada Fluminense, uma nordestiníssima embaixada.


O POVO - Me conte da sua vida antes de ir pro Rio de Janeiro.
Mestre Azulão - Eu nasci no município de Cabaceiras, acima de Campina Grande, fiquei até sete dias de nascido e meu pai voltou pra Sapé, meu pai era de lá, e lá me criei, fui batizado, registrado. Meu pai, um agricultor, tinha um gadinho, uma propriedadezinha. Me criei naquela vidinha, puxando de enxada, que este negócio de criança não trabalhar... Não pode é pequenininha, mas depois de oito anos pode ajudar o pai, isto aí faz ele se tornar um homem. Nós, eu e meus irmãos, trabalhávamos ajudando meu pai, mas minha tendência era pela poesia. Meu pai era amante dos poetas, e os cantadores cantavam muito na minha casa noites inteiras. Os meninos iam dormir e eu ficava de olho arregalado, e era danado pra decorar as toadas. Com sete anos, decorei o Pavão Misterioso.(con tinua).

"O Povo", 30/12/2005.