Postado
por
Ivan Maurício
em 22/04/2007 20:51
2007: CEM ANOS DA XILOGRAVURA (1)
2007 é o ano do centenário da xilogravura no cordel, literatura popular que serviu de berço para essa arte
Juazeiro do Norte. Um traço peculiar dentro do universo da xilogravura. Este município é um dos pólos de produção desta arte de gravar na madeira. Uma invenção oriental, milenar, iniciada pelos chineses. No Nordeste assume novos tons, com características especiais. O regionalismo se manifesta, o mítico, o dia-a-dia do sertanejo, o surreal. Um casamento perfeito com a poesia de cordel. Uma linguagem nobre.
Se em 1907, o folheto de Chaga Batista passa a ser o marco inicial do cordel, em Recife (PE), Juazeiro do Norte tem no jornal “O Rebate”, dois anos depois, o uso da xilo para suas ilustrações. Mas foi em meados dos anos 20, ao instalar, na “terra do Padre Cícero”, a tipografia São Francisco, que tudo começou. José Bernardo da Silva, alagoano recém-chegado nas levas de romeiros, pedia conselhos ao sacerdote para instalar a sua gráfica.
O velho poeta adquiriu as máquinas com sacrifício para levar adiante o sonho de produzir em folhetos suas próprias poesias e de outros escritores. No auge da confecção de folhetos, 10 mil eram impressos a cada dia, comercializados para todo o País. O Ceará era destaque nacional na produção, a partir de Juazeiro. Uma leva de poetas informavam à população os fatos do cotidiano, o sofrimento do sertanejo, as belezas do sertão. Os acontecimentos, os personagens históricos, políticos, folclore eram levados para o lirismo popular.
Nas feiras eram vendidos em cordas, estirados numa fila à disposição da escolha dos admiradores de uma nova obra. Daí o nome. Mas o casamento perfeito, no início, conforme o professor e pesquisador Renato Dantas, era pragmático, não como forma de arte. Esse reconhecimento veio só mais tarde. “Era uma necessidade. Em Juazeiro, foi criado o fazer da xilo para ilustrar capa de cordel e jornais”, rememora.
Um acervo rico e histórico se encontra atualmente na Lira Nordestina. Na última sexta-feira, foram relançados 10 clássicos, com apresentação do professor e jornalista Gilmar de Carvalho, um dos grandes estudiosos no assunto. As reedições, com 10 mil exemplares, incluem “Romance do Pavão Mysterioso”, de João Melquíades Ferreira da Silva; “Proezas de João Grilo”, de João Ferreira de Lima; “História de Juvenal e Leopoldina”, de José Bernardo da Silva; “Retirada”, de Expedito Sebastião; “A Chegada de Lampião no Inferno”, de José Pacheco, entre outros.
José Bernardo conseguiu obter o acervo de clássicos do cordel, em 1949, de Leandro de Barros, dono de gráfica pioneira, em Recife, por meio da viúva de João Martins de Athayde. Um trunfo. Mais de 200 obras de cordel, em meio às matrizes de xilo, chegaram a Juazeiro e fazem parte do acervo atual da Lira Nordestina.
A zincogravura trouxe o uso do metal para a os desenhos, os clichês menos elaborados, trazendo elementos da indústria cultural. Começa uma fase decadente, apelativa. As revistas em quadrinhos com fotografias, trazendo as histórias novelescas chamavam a atenção do grande público. Essa técnica era usada em Recife já nos anos de 1920. Para o artista plástico e xilógrafo, Stênio Diniz, o estilo não tem arte. A participação humana no processo diminui. Entra também o off-set. Mais uma vez ameaçada a arte da gravura, mas a resistência cultural e regional continua.
RIQUEZA DE DETALHES - Artista se diferencia com realismo mágico
Juazeiro do Norte. O neto de José Bernardo da Silva, Stênio Diniz, chega à Tipografia São Francisco para ser juntador de papel. Isso em 1957. O passar do tempo foi afinando o artista plástico e xilógrafo, de visão diferenciada. “O que faço é real. É um realismo mágico”, diz o artista. Ele não considera que o surrealismo está presente em seus mais de 500 trabalhos. “Não sou por não me ver assim. Para a obra ser surreal, o artista tem que ser também”, ressalta ele. (...)
"Diário do Nordeste", 22/4/2007:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=426571