ALFREDO MIRANDA (1)
Tocador de "pife" de 89 anos lança seu primeiro CD em Viçosa do Ceará
O CD, que será lançado em abril, terá uma tiragem de mil exemplares e possui o selo do Laboratório de Estudos da Oralidade da UFC e da Uece.
Xotes, mazurkas, valsas e marchas. Estas são as composições, que farão parte das 22 faixas do CD do tocador de “pife” (instrumento de sopro), Alfredo Carneiro de Miranda, de Viçosa do Ceará. Com 89 anos, Alfredo tem, agora, a oportunidade de mostrar mais profundamente a sua habilidade.
Conhecido nacionalmente ele já é, devido a Casa dos Licores, um dos principais pontos de visitação de Viçosa (perde só para a Igrejinha do Céu, que ele ajudou a construir na década de 30).
A gravação aconteceu lá mesmo, em Viçosa. O CD, que será lançado em abril, terá uma tiragem de mil exemplares e possui o selo do Laboratório de Estudos da Oralidade da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
As composições são de autoria dele e de domínio público. Deverá fazer show de lançamento inclusive em Fortaleza.
Sua família já tinha realizado uma gravação em fita cassete. O caminho até o CD foi longo. Ele teve que enfrentar preconceito.
Nem a sua namorada, Teresinha Mapurunga (com quem se casou em 1952 e de cujo enlace nasceram sete filhos), sabia de seus dotes musicais. O “pife”, na época, não era aceito na Igreja. Tocar em festas nunca foi seu forte. Ele reluta, mas reforça que, para determinadas famílias das elites, “tocador de pife não valia nada”, relembra o músico.
ORIGEM — Alfredo Miranda veio ao mundo no Sítio Buíra, dia 4 de janeiro de 1916. Ele foi o décimo terceiro dos quinze filhos de Vicente Ferreira de Miranda e Júlia Carneiro Mapurunga, em Viçosa, a 357 quilômetros de Fortaleza.
No sítio, funcionavam casa-de-farinha, engenho de pau, puxado por bois, que fabricava rapaduras, e alambiques. Até hoje são famosas as rapaduras, alfenins e cachaças da Ibiapaba.
Alfredo Miranda aprendeu a tocar “pife”, quando tinha quatro anos. Aos seis fez sua primeira composição, um choro, e não parou mais. A música embalava o trabalho duro. Acordava de madrugada ou varava a noite na fabricação de farinha e goma.
Nos anos 30, ele veio para a cidade. Tocava peças dos outros. Sua música evocou a disputa das bandas e a importância das retretas.
Alfredo também trabalhou na exibição de filmes, no Theatro Pedro II, com suas películas mudas, acompanhadas em Viçosa por seu “pife” e, no Rio de Janeiro, pelo piano de Ernesto Nazareth. Seu um repertório foi formado dessa forma, cuja parte mais representativa foi gravada nesse disco.
CASA DOS LICORES — Hoje, a Casa dos Licores se apresenta como a tradição viçosense de bem receber e não precisa marcar hora para se sentar à mesa, provar das petas e sequilhos, dos mais de cinqüenta licores que seu Alfredo manipula, comprar uma cachaça velha (e maravilhosa) datada de 1955, um dos doces da tradição que a primogênita Teresa Cristina contribui para manter e atualizar.
E a casa é permanentemente embalada por esse pífano, como se um pássaro extraviado de alguma palmeira babaçu ou pupunha tivesse pousado no número 55 da rua Francisco Caldas da Silveira, de frente para o Patronato que ele ajudou a construir e de costas para o hospital que ele também ajudou a erguer e que está, inexplicavelmente, fechado.
É um homem de bem com a vida, a quem o tempo não impregnou de amarguras. Falar para ele é um deleite, visto tratar-se de um grande narrador. Domina vários ofícios. Vendeu até máquinas de costura. Além disso, teve sua bodega na sala da frente da casa, mas é no “pife” que ele dá o seu recado e provoca esse encantamento além das palavras.
SERVIÇO - O CD será vendidona Casa dos Licores, em Viçosa do Ceará, telefone: (88) 3632-1157 e na livraria Lua Nova, na Avenida 13 de maio, 2861, em Fortaleza.
"Diário do Nordeste", 21-3-2005 - http://www.diariodonordeste.globo.com/